Buenas pessoal, quase dois anos se passaram desde nossa última grande viagem para Ushuaia. Desta vez nosso destino passa, na Argentina, por um trecho da Ruta 40 que ainda não conhecemos e, em Pucón, no Chile, pela cratera do Vulcão Villarica, tendo como objetivo principal, percorrer mais ao sul, já na Patagônia chilena, a mundialmente conhecida Carretera Austral. É consenso no meio de várias tribos de viajantes (moto, bicicleta, carro, caminhantes, etc...) que esta estrada está entre algumas das mais belas de todo mundo. Abaixo repasso algumas informações retiradas do site Wikipédia:
    "A Carretera Austral (Ruta CH-7) é uma rodovia localizada no sul do Chile. Seu traçado atual de 1.240 quilômetros une Puerto Montt a Villa O'Higgins na comuna de O'Higgins, sendo a principal via de transporte terrestre da Região de Aisén e da Província de Palena na Região de Los Lagos, permitindo a ligação destas com o resto do território chileno.
    Devido às complicadas características geográficas do território, no qual predominam os Andes Patagônicos, lagos, turbulentos rios e a presença de campos de gelo, a rodovia está em permanente manutenção. Por outro lado, grande parte da rodovia carece de pavimentação.
    Sua construção iniciou-se em 1976 por ordem do Regime Militar, sendo um dos projetos mais caros e ambiciosos de todo o século XX no Chile. O trabalho dos membros do Exército do Chile habilitaria os diferentes trechos da rodovia ao longo dos anos 1980 permitindo a conexão da Patagônia chilena com o resto do país após anos de isolamento. A rodovia ainda não está completa e vários trechos são percorridos através de balsas, principalmente na parte setentrional da província de Palena, entre Hornopirén e Caleta Gonzalo."
    A preparação para esta viagem, assim como as demais, começou quase um ano antes. Em relação ao equipamento, aos poucos comprei peças de reposição para a moto, assim como materiais necessários caso resolvêssemos acampar durante a viagem (fogareiro, colchão auto-inflável, panela, talheres). Faltando um mês para a partida levei a moto para a revisão; substituí a bateria original que ainda estava boa porém já com quase seis anos de uso, troquei os dois pneus, óleo e filtro do motor, óleo da suspensão dianteira, limpeza nas conexões elétricas (chicotes), assim como uma inspeção e lubrificação geral na moto.
    Com relação ao planejamento do trajeto a ser realizado, com tempo estudei as melhores rotas, contemplando algumas paisagens e estradas novas a serem percorridas, como também os principais pontos de apoio com relação a abastecimento e hospedagem. Li diversos relatos sobre o trecho, tanto no meio virtual, como em livros escritos por alguns viajantes, certamente foram de grande valia.

    Sexta(30/12/2016)
    Dia 01: Passo Fundo (RS) - Federal (Arg) - 811 Km

    Tivemos uma quinta-feira muito corrida, além dos compromissos profissionais, chegava a hora de fazer os últimos ajustes antes da partida. Ainda ontem, enquanto aguardava a chegada do Charles, que vinha de Erechim, precisei ir ao mercado comprar algumas coisas para a viagem, também montei e desmontei a bagagem várias vezes, até encontrar a configuração mais prática do conteúdo dentro do "top case", como também da mala impermeável de 49 litros que carrego sobre o assento traseiro. Ainda desci para fazer um teste com a bagagem sobre a moto, uma correria que, mesmo com a chegada do Charles, se estendeu até a meia-noite.
    Despertamos as 5:30 h da manhã e meia hora depois já estávamos rodando com as motos em direção a fronteira. Logo na saída de Passo Fundo já paramos para verificar se havia lubrificante na transmissão da V-strom do Charles como também para reapertar o defletor de ar do para-brisa de sua moto. Ontem, com receio de danificar a peça, não apertamos muito o parafuso que regula a inclinação do defletor. Prevendo que a peça poderia apresentar este comportamento assim que imprimíssemos uma certa velocidade na estrada, já havia separado e deixado com o Charles a chave específica para o reaperto.
    Abastecemos rapidamente no acesso a Santo Ângelo e seguimos viagem até São Borja onde, novamente, paramos para abastecer e fazer um lanche com as coisas que levávamos na bagagem. Abri uma lata de salsicha e empurramos com água e chimarrão goela abaixo. Fazia anos que não comia uma salsicha dessas enlatadas, parece papelão mesmo, incrível como ainda vendem isto nos mercados. Nesta parada encontramos um motociclista do Rio de Janeiro, viajava sozinho com destino a Buenos Aires em uma BMW GS 650.
    Sob forte calor seguimos pela BR 472. Entre Itaqui e Uruguaiana paramos para aguardar a passagem sobre a ponte do Rio Ibicuí. Sim, paramos, pois aí existe um semáforo que regula o trânsito nesta velha ponte de pista única, fabricada por ingleses no século XIX, onde outrora passavam trens, agora passa todo o fluxo leve e pesado com destino a Uruguaiana e países do Cone Sul. Desviamos algumas nuvens de chuva e, por volta das 13:00 h chegamos a Uruguaiana.
    Parece brincadeira, mas assim que encostamos as motos nas bombas de gasolina, também chega o Sérgio vindo de Porto Alegre com sua Tiger 800. Aproveitamos a parada neste ponto de encontro, depois de mais de 500 km rodados, para descansar, fazer um lanche mais reforçado e também para esperar passar a chuvarada que recém iniciou.
    Assim que a chuva deu trégua saímos com as motos em direção a aduana argentina. O local para realização dos trâmites foi deslocado do prédio central para outro ao lado direito de quem chega do Brasil, bem em frente ao estacionamento. Depois de alguns minutos na fila sob um sol escaldante, ajustamos a documentação, trocamos com os cambistas locais (com boa cotação) alguns reais por pesos argentinos e iniciamos nossa primeira parte argentina da viagem. Saliento aqui que não existia mais aquela casa de câmbio na aduana, na qual sempre estivemos acostumados a trocar moeda. Uma boa dica é ter conhecimento dos valores cambiais para não ser enganado e efetuar a troca com os cambistas locais. O câmbio longe da fronteira continua sendo muito desfavorável ao viajante. Apenas para ilustrar minha colocação, no mesmo período em que saímos de viagem, vendiam em Passo Fundo cada peso argentino a R$ 0,33 enquanto, que na fronteira Uruguaiana/Paso de Los Libres pagamos R$ 0,21 por cada peso argentino. Uma diferença bem grande, de mais de 35%, e que faz muita diferença em uma viagem de vários dias pela Argentina!
    Assim que ingressamos na Ruta 14, uma providencial chuva nos deu as boas vindas, aliviando o forte calor que nos cozinhava dentro das pesadas roupas de cordura. Seguimos sem colocar as roupas de chuva, pois notamos que mais adiante o tempo já abria. Após rodar por uma excelente pista dupla, deixamos para trás a 14 e entramos na péssima Ruta 127, repleta de imperfeições até a cidade de Federal. É claro que, como sempre, paramos e descemos das motos para mostrar toda nossa documentação para a fiscalização próxima a San Jaime de La Frontera. Os policiais foram cordiais e, enquanto transpirávamos alguns litros a mais por baixo de nossa roupa preta, nos deram algumas dicas sobre o caminho. Em algum momento deste trecho, em uma destas imperfeições, o Charles encostou em um grande desnível na linha de separação central das pistas e teve a moto arremessada para o outro lado da via. Conseguiu ficar em pé por dar aquela "pedalada" no asfalto antes da moto cair, retomando gradativamente o controle no fim da pista contrária. Analisando posteriormente as imagens da filmadora do Sérgio, percebemos a gravidade do ocorrido e também agradecemos por não ter fluxo de carros no sentido contrário. Foi um grande susto para todos!
    Quando paramos para abastecer em Federal, província de Entre Rios, o calor estava insuportável, acredito que acima dos 40 °C. Conversamos entre nós, pedimos informações de hospedagem ao frentista e achamos melhor parar por aí mesmo, pois já estávamos muito desgastados pelo efeito das altas temperaturas.
    Hospedamos-nos no Hotel Yatay, localizado a meia quadra da estrada e bem perto do posto de gasolina. Um lugarzinho muito simples, mas que dispunha de um quarto com ar-condicionado, bom banho e garagem para as motos. Assim que encostamos as motos no hotel, antes mesmo de me instalar no quarto, já soltei a roda dianteira de minha moto para corrigir um barulho que vinha me incomodando a algum tempo. O eixo da roda tem uma folga natural para a montagem, se a bengala ficar muito fechada no momento da montagem, uma presilha das pastilhas de freio fica encostando no disco e produz um barulhinho irritante. Foi só afrouxar o eixo e abrir em 1 mm a distância entre as bengalas.
    Após todos tomarem um bom banho para apaziguar aquele calor infernal, tomei uma cerveja geladíssima na recepção do hotel e saímos para caminhar pela cidade. Aproveitamos também para comprar algumas coisas num mercado local. Mais tarde fomos até um restaurante perto do hotel, pedimos uma parrilada para 3 e recebemos um punhado de costelas (asado de tira) servidas naquelas bandejas com brasa para a comida não esfriar. Mesmo faltando o restante das carnes de uma parrillada tradicional, nos deliciamos com a excelência da carne argentina. Gastamos cerca de $ 190, 00 pesos argentinos ou, no câmbio do dia, Us$ 15,00 por pessoa. As batatas fritas, que tradicionalmente acompanham as refeições por aqui, estavam demasiadamente encharcadas em um óleo de validade duvidosa. O resultado foi uma noite de rei para mim e para o Sérgio. O Charles, como uma boa draga que é, nem foi afetado pelo infortúnio gastrointestinal.
    Além do calor, o dia foi marcado pelo encontro de alguns animais silvestres na estrada. Quase atropelei um casal de furões que atravessaram a estrada e ainda avistamos vários graxains pelo caminho. Com relação as médias de consumo, as duas Suzukis estão andando na casa dos 20 Km/L.
    Hospedagem: Hotel Yatay, rua Gdor Antelo nº 1195, Federal, Província de Entre Rios, telefone 03454-15407480. Acomodações simples, ar-condicionado, wi-fi e café da manhã. Localizado próximo da estrada, restaurante e mercados. Diária Us$ 50,00 para o quarto triplo.

    Sábado(31/12/2016)
    Dia 02: Federal (Arg) - Villa Mercedes (Arg) - 805 Km

    O hotel servia o café somente a partir das 7:00 h mas, como ontem adiantamos um pouco o cronograma, resolvemos sair sem pressa e aproveitar as duas medialunas com café preto inclusas na diária. O dia prometia ser quente e já saímos do hotel sentindo muito calor. Para colaborar mais um pouco com nosso desconforto, após alguns quilômetros rodados, a polícia caminera de Entre Rios solicita a nossa parada, sinalizando que era para encostar a moto no acostamento, apontando assim que todos os documentos seriam consultados. O Sérgio carrega uma pequena filmadora presa ao seu capacete e por motivos óbvios, fica ao final da fila para registrar todas as abordagens. Novamente a filmadora é percebida e a abordagem é justa. Ficamos algum tempo, sob um sol matador, conversando com os policiais. A unidade possuía duas viaturas Honda Twister de 250 cc, as quais serviram de pretexto para alongar a prosa e usar o banheiro sem receber uma negativa por parte das autoridades. Durante esta conversa descobrimos que a previsão era de que os termômetros chegassem na casa dos 42 ºC no dia de hoje. Com esta notícia, tomamos mais um pouco de água, fechamos as roupas e tratamos de diminuir a distância com relação ao nosso destino do dia.
    Facilmente chegamos a Paraná, pagamos um modesto pedágio e cruzamos pelo túnel subfluvial o imenso Rio Paraná. Logo estávamos na região urbana de Santa Fé , onde eu sempre encontro alguns problemas de navegação. Na primeira mudança de traçado, obedecendo ao GPS, perdi a saída para a estrada que contorna a cidade e entramos pela avenida central. Percebendo instantaneamente o erro, parei e pedi informações, retornando assim rapidamente à perimetral. Mais alguns quilômetros sobre esta via, outra saída mal sinalizada, com o GPS nos metendo para dentro da cidade e mais cinco minutos para aprumar a moto no caminho certo. A partir daí, mais algumas rótulas e desvios corretos adiante e paramos na cidade vizinha de Santo Tomé para descansar e abastecer as motos.
    Finalmente nosso percurso urbano estava acabando, agora seria somente atravessar a pequena cidade-satélite, parando em diversas sinaleiras e seguindo o pesado trânsito por esta via de acesso que leva a Córdoba. Após poucos minutos sobre a excelente e duplicada Ruta 19 presenciamos uma cena hilária (para nós) ou talvez, desesperadora (para o protagonista). Ao longe avisto um carro parar rapidamente no acostamento, o motorista sai correndo, atravessa um largo canteiro de grama que separa a estrada da cerca que limita uma plantação e, num golpe muito violento, vira de costas para a estrada, num local de vegetação muito rala e baixa sua calça, evidenciando que daquele grande traseiro branco, algo urgia em sair. Que desespero do vivente!
    Chegando a localidade de San Francisco, deixamos a Ruta 19 para trás e entramos na Ruta 158, uma estrada estreita e sem atrativos. Neste trecho, até a nossa parada para abastecer na pequena cidade de Saturnino M. Laspiur, fomos acompanhados por uma pequena chinesa de 125cc sem escapamento, cujo piloto insistia em "costurar" imprudentemente entre nossas motos. Nesta parada encontramos um casal de professores, do estado brasileiro do Paraná, viajando ao Chile em uma nova Honda CB 500 X, com pouca bagagem, pouquíssima informação e nenhuma roupa de proteção. Conversamos um pouco, passamos algumas dicas aos debutantes em estradas argentinas, fizemos um lanche e seguimos viagem. Acredito que seriam como 14:00 h, seguíamos com a programação de pernoitar em Sampacho e eles com a ideia de chegar a Mendoza (730 km adiante). Não preciso dizer que, devido ao adiantado da hora, provavelmente, o casal chegaria por volta da meia noite ao destino programado por eles. Tomara que tenham tomado a sensata decisão de pernoitar em alguma cidade pelo caminho em vez de arriscarem essa viagem noturna por esta região inóspita que irão passar até chegar à Mendoza. São longos trechos de deserto, onde os recursos em caso de algum problema podem estar a muitos quilômetros de distância.
    Andamos mais 112 km até Villa Maria onde, depois de quase sucumbir ao forte calor nas inúmeras interrupções nos semáforos, fomos obrigados a parar para nos refrescar. Já estávamos passando mal quando achamos um posto de gasolina com sombra, paramos, abastecemos as motos e ficamos um bom tempo parado para esfriar o "nosso radiador". Ficamos somente com as calças, deixamos o resto das roupas espalhadas, secando (o suor) e tomamos muita água para retomar as forças e tentar cumprir nossa meta do dia.
    Seguindo viagem, passamos a cidade de Rio Cuarto e chegamos à tão esperada Sampacho. Antes de procurar o hotel que já conhecíamos do retorno de nossa viagem em julho de 2011 ao Chile, fomos ao posto abastecer e fazer um lanche. Como a galera ia comer algo mais demorado, resolvi seguir ao hotel para garantir nosso check-in. Minha surpresa que, ao chegar à Hosteria San Fernando, que mais parecia um hotel fantasma, fui informado que não havia vagas. Após o Sérgio e o Charles chegarem, verificamos a possibilidade de hospedagem em mais dois hotéis onde, tampouco fomos atendidos. Até hoje desconfio que o hotel estivesse fechado, pois não havia nenhuma alma penada lá dentro, luzes apagadas, janelas fechadas e a galera escondida em seu interior só esperando a cerveja gelar para começar a festa da virada. Melhor se tivessem colocado alguma placa de cerrado! A melhor opção encontrada foi seguir viagem até a próxima localidade, um povoado chamado Chaján.
    Ainda tínhamos um bom tempo de sol para rodar, a temperatura começava a ficar mais agradável e assim seguimos descansados até o pequeno pueblo. Ao avistar o modesto Hotel Medanos me dirigi até a porta que estava fechada e lí um pequeno bilhete grudado ao vidro: " Fechados, reabriremos dia 02/01". Buenas, seguimos na estrada, a próxima cidade no mapa seria Villa Mercedes, 50 quilômetros adiante. Neste último trajeto atravessamos duas tempestades gigantescas, simultaneamente uma de cada lado da estrada, a poucos quilômetros de distância, onde imensas nuvens negras despejavam uma grande quantidade raios em meio a uma pesada chuva que despencava do céu. Por muita sorte, o único caminho seco e limpo era o que se descortinava na direção em que rodávamos.
    Chegando em Villa Mercedes, não encontrando hotéis pelas ruas que passamos, escolhi aleatoriamente alguns no GPS e seguimos à procura. Fomos levados a um bairro daqueles onde as pessoas atendem seus estabelecimentos protegidos por grades. As duas primeiras opções estavam fechadas pelo evento "virada de ano", o terceiro não tinha garagem e tampouco ar-condicionado nos apartamentos, além de ser uma secular espelunca. Pedimos mais informações que, finalmente, nos levaram a mais opções de hotéis no centro. Agora sim, após mais de 800 quilômetros rodados, nos atiramos em um fino hotel, não por nossa escolha, mas por ser um dos poucos abertos na data.
    O centro de Villa Mercedes é bem interessante, assim como várias cidades argentinas, com passeios cobertos por plátanos, bares e muita gente conversando nas mesas de rua, naquele eterno happy hour dos hermanos. Nosso jantar, pelo adiantado da hora, pois os estabelecimentos fechariam mais cedo hoje, foram as tradicionais e deliciosas hamburguesas con papas fritas.
    Hospedagem: Epic Hotel Villa Mercedes, www.epichotelvillamercedes.com, email reservas@epic-hoteles.com.ar, Rua León Guillet nº 71, Villa Mercedes, Província de San Luis. Acomodações 4 estrelas, localização central mas de fácil acesso e próximo de restaurantes. Possui restaurante próprio e bar. Diária em quarto triplo Us$ 140,00.

    Domingo(01/01/2017)
    Dia 03: Villa Mercedes (Arg) - Malargüe (Arg) - 579 Km

    Durante a noite choveu forte na cidade, mas, quando despertamos, a chuva havia passado e um lindo dia nos aguardava para compartilhar a estrada. Descemos ao café e nos fartamos em um buffet muito variado e saboroso. Arrumamos as malas e colocamos as motos para rodar.
    Depois de dois dias escaldantes, hoje fomos agraciados com uma excelente temperatura na estrada. Aliando a este fator um vento que batia na traseira de nossas motos, rodamos confortavelmente os 96 quilômetros até San Luis. Mesmo tendo gasto pouquíssimo combustível, paramos na entrada da cidade e enchemos o tanque das motos, visto que o próximo trecho era novo aos nossos olhos e teríamos uma longa distância a ser percorrida sem opções de abastecimento. Aceleramos novamente pela Ruta 7 até o entroncamento com a Ruta 146 que nos levaria a San Rafael. Num descuido meu, que vinha ora contemplando a paisagem, ora cuidando a saída no GPS, percebo, já um pouco atrasado, a placa indicativa para deixarmos a autopista. Desacelero, deito a moto para a direita e entro "quente" para contornar o viaduto. O Charles consegue acompanhar minha manobra arriscada e o Sergio (acho que vinha mais quente ainda), precisou parar para retomar corretamente a entrada.
    No início, a estrada apresenta um pouco de vegetação ao largo mas, a medida que avançamos, o deserto toma conta da paisagem e só nos resta acelerar enquanto cortamos lateralmente o vento argentino. Em certa altura, talvez no meio do caminho deste trecho, realizamos uma parada estratégica para esvaziar as bexigas, comer uma barrinha de cereal e descansar o lombo. Preparamos um mate amargo e aproveitamos também para descansar a alma, "ouvindo o silêncio ensurdecedor" destas ermas paragens em que nos encontrávamos, "no meio do nada", entre San Luis e San Rafael. Revigorados, subimos nas motos e tocamos até a pequena Monte Comán. Foram 223 quilômetros sem pontos de abastecimento.
    A partir deste pequeno povoado, as paisagens mudam, já aparecem alguns vales mais verdes, com rios de pequeno e médio caudal e pequenas propriedades rurais. Mais alguns quilômetros adiante e chegamos à região urbana de San Rafael, onde as placas indicativas são poucas e, para fugir do centro, para onde parecia que o fluxo de carros nos levaria, acabamos seguindo as informações do GPS. O notável aparelho nos levou a contornar a cidade por um acesso sem pavimento e com intenso tráfego, porém dos deixou em um acesso onde, rapidamente, achamos uma placa indicativa para Malargüe e assim entramos na Ruta 144.
    Esta nova estrada inicia em uma zona urbana, passa pela subida de uma cuesta lindíssima, pela reserva privada de Sierra Pintada até cruzar, já em uma região de maior altitude, pelas Salinas del Diamante. Chegando neste trecho, paramos as motos no acostamento para curtir um pouco a paisagem e, conversando entre nós, também chegamos a conclusão de que foi neste dia que, realmente, a viagem começou. Deixamos para trás aquele monótono trecho de ligação, onde apenas aceleramos as motos em meio a extensas áreas de cultivos ou criação de gado, para então chegar a regiões com grande apelo visual ao viajante. Iniciamos hoje, depois de dois dias e meio de estrada, a viagem com a Cordilheira dos Andes e seus picos nevados ao nosso lado, com rios de degelo, das mais diversas tonalidades, serpenteando ao longo da estrada, com a mítica Ruta 40, ora de asfalto, ora de rípio, sob as rodas de nossas motos e com a certeza que fizemos a escolha certa do caminho que nos levará ao destino principal de nossa viagem.
    Quando chegamos à localidade de El Sosneado, paramos para registrar no ingresso na Ruta 40. Aproveitamos o momento para conversar sobre a proximidade deste pequeno povoado com uma grande tragédia aérea ocorrida a apenas 30 quilômetros de distância, no Vale das Lágrimas, entre o Cerro El Sosneado e o vulcão Tinguiririca. No ano de 1972 um avião da Força Aérea Uruguaia que havia sido fretado e levava um time de rúgbi, seus familiares e repórteres caiu em plena Cordilheira dos Andes. Após 72 dias em alta montanha, lutando contra a fome, sede, temperaturas baixíssimas, avalanches, doenças, ferimentos e a falta de oxigênio no ar rarefeito, apenas 16 sobreviventes foram resgatados. Esta incrível e emocionante história foi contada em alguns livros e filmes e ficou conhecida como "Os Sobreviventes dos Andes". Vale a pena conferir!
    Em pouco tempo chegamos à simpática Malargüe, uma pequena cidade que vive em função do turismo da Ruta 40, das belezas da região de cordilheira e que também é muito procurada como dormitório pelos frequentadores do centro de esqui da vizinha Las Leñas. Ainda era cedo, porém paramos por aqui. E esse era o estabelecido para o dia, pois o trecho seguinte seria mais "casca grossa", com 90 quilômetros de rípio e vários quilômetros até o próximo ponto de hospedagem existente. A melhor opção nestes casos é iniciar a viagem cedo, com tempo para apreciar a exuberante paisagem e rodar sem pressa por terrenos de difícil pilotagem. Normalmente isso faz a diferença entre cair ou não neste tipo de pavimento. Velocidade e Ruta 40 não combinam!
    Fizemos um lanche demorado e caprichado no posto YPF de Malargüe, aproveitamos o wi-fi e a demora no atendimento para pesquisar hospedagem e avisar os familiares que chegamos. Aliás, demora no atendimento e formação de fila estão se tornando habituais nesta viagem. Na maioria dos casos a fila inicia na bomba de combustível e depois prossegue para loja de conveniência do posto, onde, normalmente, uma única pessoa anota os pedidos, cobra e entrega, chegando ainda, em alguns casos, a preparar o alimento enquanto o próximo espera para ser atendido. Mas por aqui é assim, parece que a vida segue sem pressa e, como estamos de férias, só nos resta "pegar no tranco". Alimentados e com as motos abastecidas saímos para verificar o camping local e mais algumas opções para passar a noite. O camping era barato, cerca de Us$ 5,0 por pessoa, e estava com as melhores vagas ocupadas, sobrando apenas algumas opções em areia, sem sombra, longe dos banheiros e ao lado do alambrado para a rua. Colocamos em votação a nossa permanência ali e acabei perdendo para a maioria. Logo em seguida, saímos (na contramão por engano) à procura de alguma cabana. Paramos em algumas à beira da estrada e não fomos atendidos até que chegamos, seguindo uma placa, nas confortáveis Cabañas Cali Güe, de propriedade de um motociclista chamado Juan Carlos.
    Com muita calma descarregamos as motos e nos instalamos na cabana. Abusamos da presença e boa vontade do Juan, preparamos um mate e fomos prosear com ele e sua esposa, onde aproveitamos para pedir algumas dicas de hospedagem e da estrada que iríamos enfrentar amanhã. De saída ele já sugeriu que pernoitássemos em Zapala e não em Las Lajas como havíamos planejado, pois a cidade seria maior e com mais opções de hospedagem e alimentação. Também insistiu para que tivéssemos muita cautela no trecho de rípio, pois são comuns as quedas neste pedaço da Ruta 40. O Juan também nos contou um pouco da história da região como também de sua própria história pessoal. Proprietário de uma Honda Africa Twin de 750 cilindradas, o então morador da capital Buenos Aires resolveu mudar de vida após uma visita à região. Comprou um terreno, construiu suas cabanas e hoje em dia vive na pacata Malargüe, recebendo turistas de todo o mundo, longe da loucura das grandes cidades.
    Ainda com sol alto fomos até um pequeno mercado na esquina mais próxima, compramos salame, ervilhas, molho de tomate, massa, queijo ralado, cervejas, refrigerantes e, para a sobremesa, excelentes alfajores Oreo. Em pouco tempo nosso jantar estava pronto e nossa fome saciada. Hoje fomos dormir mais tarde, conversamos por muito tempo enquanto o sono não chegava. Assim que deitamos e apagamos as luzes do quarto, iniciou um ataque instantâneo de vorazes mosquitos sedentos de sangue. Mesmo tapados até a cabeça, o zumbido sobre nós era algo anormal, não havia modo de dormir e então resolvemos agir, precisávamos por um fim a esta torturante situação. A melhor opção seria um bom inseticida aerossol, mas disto não dispúnhamos, então nos restou fechar as janelas e abater um por um. Logo que ligamos as luzes, de pronto notamos antigas marcas nas paredes, onde vários corpos sem vida destes dípteros denunciavam o pavor já vivenciado por outros hóspedes. Depois de uma longa peleja, deitamos e dormimos o sono merecido.
    Hospedagem: Cabañas Cali Güe, www.cabanascaligue.com.ar, email cabanascaligue_atwin@yahoo.com.ar, Rua Los Abedules nº 160, Malargüe, Província de Mendoza, localizada a 100 metros da Ruta 40, logo na entrada da cidade. O atencioso proprietário, Juan Carlos, é motociclista. A cabana tem um quarto de casal e outro com 2 beliches. O café da manhã é disponibilizado para preparo na própria cabana. Diária Us$ 85,00.

    Segunda(02/01/2017)
    Dia 04: Malargüe (Arg) - Zapala (Arg) - 572 Km

    A grande vantagem de preparar o café no quarto é que ficamos livres para sair mais cedo, sem ter que esperar até tarde para fazer a primeira refeição do dia. Mesmo após a épica batalha noturna contra os sedentos sanguessugas voadores, acordamos cedo e bem dispostos, preparamos rapidamente o café, carregamos as motos e saímos para enfrentar o frio matutino na região de Malargüe.
    O trajeto de hoje não será muito longo, talvez demorado pelos 90 Km de rípio que teremos pela frente, e por isso saímos com calma, já parando muito nos primeiros quilômetros sobre a Ruta 40 para registrar algumas fotos e realizar algumas filmagens da estupenda paisagem que se descortinava a cada quilômetro rodado.
    Acredito que rodamos por 20 ou 30 quilômetros até o ótimo asfalto acabar. Chegamos ao trecho de rípio em meio a obras de pavimentação e pegamos à direita para Bardas Blancas, seguindo a orientação do nosso mapa e das placas provisórias (pois o GPS ficou sem sinal); passamos uma longa ponte sobre o Rio Grande e seguimos devagar apreciando a paisagem. Neste pedaço da Ruta 40, o asfalto já está pronto em um grande trecho, porém acredito que ainda não foi liberado porque falta a conclusão de algumas pontes e bueiros. O pavimento é do mais variado, com trechos bem compactados, com rípio solto, com muito rípio solto, com as terríveis corrugações (costeletas ou calaminas, esta última denominação utilizada pelos hermanos), com o trilho fundo, com o trilho raso, etc. Por este motivo bem heterogêneo na disposição do pavimento é que devemos ter o maior cuidado possível na condução da motocicleta, prestando ainda, uma maior atenção quando estiver ventando forte. A tendência é de adquirir confiança e aumentar a velocidade gradativamente conforme conhecemos a estrada porém, alertamos que é o erro mais comum a ser cometido, faça isso e correrá o grande risco de conhecer de perto o terreno! Essas variações no pavimento ocorrem sem aviso, você pode estar rodando tranquilamente a 110 km/h em uma parte bem compactada e, repentinamente, entrar em uma parte com rípio solto ou ainda, ser pego por um vento lateral que pode te forçar a encostar na beira do trilho. E aí meu irmão...já era! Pode ser o fim de sua viagem, seja ele por motivos mecânicos ou de saúde, assim como foi o de muitos viajantes, conforme relatos que ouvíamos pelo caminho. A média geral de nossa viagem nas partes sem pavimentação asfáltica deve ter ficado na casa dos 40 km/h. Ninguém caiu!
    Em alguns trechos acompanhamos paralelamente o Rio Grande, com seu forte caudal, águas barrentas (ao menos neste dia assim se encontrava) e de imensa beleza. Mais adiante passamos sobre um estreito cânion formado pela força deste rio, num local chamado La Pasarela, parada obrigatória para descanso e registros fotográficos. Já passava do meio-dia quando paramos para almoçar no pequeno povoado de Barrancas. Seguindo as indicações de algumas placas, rapidamente encontramos um simples restaurante onde nos foi servida uma saborosa e farta refeição. Neste restaurante, o La Cima, encontramos com um casal, ele não falava espanhol e era sul-africano, ela era fluente no idioma local, porém não recordo ao certo de onde era. A dupla viajava em uma moto alugada em Santiago do Chile, desciam até Ushuaia, sempre usando a Ruta 40 como referência. Com a garota de intérprete, trocamos algumas informações sobre viagens e motos e, assim que terminamos de almoçar, nos despedimos e seguimos viagem separadamente, pois o casal andava muito mais forte que a gente.
    Passamos ainda cedo pela pequena Chos Malal onde, depois de algumas informações desencontradas, achamos o posto de gasolina que procurávamos. Uma coisa que me aborrece muito é esta dificuldade em achar certas referências básicas. Nesta localidade não tem posto na estrada e fomos obrigados a entrar na cidade por um acesso secundário, pois era o mais óbvio e único existente a ser usado na direção em que trafegávamos. Em momento algum achamos placas indicativas e tampouco o GPS marcava a posição correta. Quando avistei o posto entrei, de cabeça quente, diretamente na primeira bomba que avistei. Instantaneamente fui convidado pelo frentista a olhar para o outro lado, onde avistei o início de uma tradicional fila de abastecimento com uma quadra de extensão. Abastecemos, conversamos mais um pouco com o casal que encontramos em Barrancas, tomamos um café para espantar o sono e seguimos viagem.
    Logo na saída de Chos Malal, depois de uma barreira policial, paramos novamente para registar nossa passagem pelo ponto central da Ruta 40, o quilômetro de número 2.623 da estrada mais famosa da argentina, daqui estamos a meio caminho do seu início em Cabo Virgenes ou de seu fim, na divisa com a Bolívia, em La Quiaca. Estava ficando tarde, o vento aumentou muito de intensidade, então resolvemos andar mais e parar menos. Passamos rapidamente por Las Lajas e, ao final da tarde chegamos, sob um vendaval patagônico, em Zapala. Recorremos um pouco a cidade a procura de um hotel (daqueles que gostamos: barato), não encontramos nenhum. Resolvemos abastecer as motos no posto da entrada e então pedir informações. Nos dirigimos até o hotel indicado, era outro daqueles caríssimos, com cassino e um monte de frescura da qual não fazemos nenhuma questão. Mas o dia foi duro, primeiro a poeira, a tensão e os solavancos da estrada de rípio, depois os fortes ventos, como aqueles enfrentados na Terra do Fogo, que nos açoitaram na parte final da viagem. Não tivemos muita dúvida, ficamos por ali mesmo, ainda que a tarifa de hospedagem não fosse nada convidativa.
    Mais tarde fomos até o resto bar do cassino, localizado no próprio hotel, tomamos dois litros de cerveja Imperial, comemos um lanche monstruoso e retornamos ao quarto para descansar.
    Hoje percebemos dois problemas mecânicos nas motos. A suspensão dianteira da V-strom do Charles sucumbiu ao primeiro trecho de rípio, estourou um retentor e começou a vazar óleo em uma das bengalas, enquanto que um elo da corrente de transmissão da minha DL-650, já com 15 mil quilômetros de uso, depois do mesmo trecho de rípio, endureceu e começou a fazer um ruído aborrecedor em uma determinada rotação. Sem muita preocupação, pois carrego uma corrente extra na bagagem, encharquei a transmissão de lubrificante e guardei a moto na garagem do hotel. Amanhã é outro dia e viajamos um dia após o outro - keep calm.
    Hospedagem: Hotel Casino Hue Melen, email hotelhuemelen@hotmail.com, Rua Almirante Brown nº 929, Zapala, Província de Neuquen. Diária em quarto triplo Us$ 130,00.

    Terça(03/01/2017)
    Dia 05: Zapala (Arg) - Bariloche (Arg) - 454 Km

    Não me recordo a que horas despertamos, mas não foi muito tarde, pois o café já estava servido, ainda que o padeiro não tivesse dado o ar da graça. Para ganhar tempo buscamos as motos na garagem e estacionamos na frente do hotel, carregamos e voltamos ao café. Nada das medialunas e sem isso não ha como iniciar a viagem. Ocupamos uma mesa, tomamos um café, sucos, comemos algumas guloseimas e, num rápido momento em que espiamos pela janela, uma pequena van descarregava nossas tão almejadas medialunas. E como estavam boas, talvez as melhores da viagem, quentinhas e macias...hummmm...que delícia!
    O dia não estava lá de muitos amigos e o vento, mesmo ainda cedo da manhã, já atrapalhava na condução. O sol parecia um pouco sem força, o frio estava forte, confirmando que realmente o dia iniciara "emburrado". Ao retornamos para a Ruta 40, passamos ao largo de um YPF com suas filas e seguimos a viagem oscilando entre paisagens monótonas e alguns trechos muito interessantes até chegar a uma bifurcação na estrada, onde precisamos escolher a opção para alcançar Bariloche, uma mais rápida, com 75 quilômetros a menos e outra mais bela. A opção mais curta é tomar a Ruta 234 dobrando para a esquerda. A outra opção, por qual seguimos, é continuar pela Ruta 40 em direção a Junin de Los Andes, passando por San Martin de Los Andes, Ruta dos Siete Lagos, Villa La Angostura e, após contornar o lago Nahuel Huapi, alcançar San Carlos de Bariloche. Já realizei os dois trajetos e afirmo que ambos valem cada gota da gasolina que gastamos, ainda que, indiscutivelmente, o caminho pela região dos lagos é muito mais atrativo.
    Assim que optamos pelo caminho da direita, passamos pelo lindo vale do Rio Collon Cura e mais alguns metros adiante, por um mirante voltado a um imenso paredão rochoso, onde era possível o avistamento de alguns condores voando ou pousados em suas encostas. No momento em que saímos da proteção oferecida pelo vale, o forte vento patagônico voltou com toda força e foi nosso companheiro por vários quilômetros de estrada. Paramos para abastecer na entrada de Junin de Los Andes e, depois de curtir mais uma fila, fizemos um lanche e aproveitamos a internet do local para mandar notícias para a galera. Ainda era cedo, tomamos um mate e aguardamos um pouco para ver se as rajadas de vento diminuíam de intensidade.
    Já descansados e percebendo que o vento estava do mesmo jeito, subimos nas motos e rodamos em sua companhia até a linda cidade turística de San Martin de Los Andes. Esta pequena localidade está encravada entre as lindas montanhas da Cordilheira dos Andes, às margens do Lago Lácar, perto das dependências do Cerro Chapelco, servindo como cidade sede tanto no inverno como no verão para as diversas opções de lazer e turismo da região. Certamente é um local que deve ser dada uma maior atenção em uma futura viagem.
    O trânsito na cidade estava lento, atravessamos com muita calma, observando cada detalhe que conseguíamos captar enquanto manejávamos nossas motos. Ao final da avenida paramos para algumas fotos junto ao lago e logo entramos na lindíssima Ruta dos Siete Lagos. No início aproveitamos muito o deslocamento, paramos muitas vezes para apreciar a natureza, fazer fotos, sentir o ar límpido dos Andes que trazia consigo o frescor e o perfume das mais diversas qualidades de árvores e flores da região até que, na última parada, fomos obrigados a colocar os trajes impermeáveis. A chuva veio com força e em alguns trechos a água que descia das encostas atravessava fortemente a estrada. A condição climática não nos permitiu mais contemplar o entorno, às vezes, numa rápida espiada, notávamos que deixávamos para trás mais um novo lago de rara beleza. Seguimos adiante, passando por alguns campings pelo caminho, por florestas de grande porte e por um cenário de imensa beleza. Em minha segunda passagem por aqui, novamente atravesso Villa La Angostura com chuva, até parece que esta pequena localidade está de mal comigo. Assim que saímos da região montanhosa, também deixamos para trás a pesada chuva e, logo após esta última cidade, já nos encontramos rodando com sol, frio e muito vento até chegar ao nosso destino de hoje, a também belíssima San Carlos de Bariloche.
    Já conhecendo a cidade, conduzi o grupo até o centro, onde poderíamos procurar com mais calma um hotel com garagem e perto das coisas que necessitamos. É janeiro, a cidade estava uma loucura, muitos carros nas ruas, muitas pessoas caminhando e os hotéis lotados. Estacionamos as motos e, enquanto o Sérgio e o Charles cuidavam do equipamento, saí caminhando e pesquisando pelos diversos hotéis do entorno. A maioria já se encontrava reservada a grupos de estudantes até o dia 15 deste mês, porém, depois de uma curta caminhada, acabei encontrando uma boa opção, dentro de nossas necessidades e possibilidades.
    Depois de tomar um bom banho e reaquecer o corpo saímos para circular pelo centro, pois sempre é bom caminhar e exercitar as pernas depois de um longo dia sentado sobre a moto. Aproveitamos para fazer um lanche e já avaliamos as opções para o jantar, para comprar alguma lembrança como também verificamos a opção para canbiar alguns dólares por pesos chilenos.
    A movimentada Avenida Mitre, onde estão as principais lojas, bancos, restaurantes e consequentemente as pessoas, estava em obras, cheia de tapumes, formando um cenário muito feio onde a areia das obras era carregada pelo forte e gélido vento, atingindo assim, implacavelmente, nossas faces descobertas e causando um certo desconforto. Retornamos ao hotel para descansar e mais tarde atravessamos a rua até o restaurante El Nuevo Gaucho onde nos deliciamos com uma excelente parrillada e, de sobremesa, framboesas frescas com creme. Após experimentar nesta e em outra passagem por aqui algumas opções de restaurantes, posso afirmar que El Nuevo Gaucho é uma excelente opção para o jantar, onde a comida tem compatíveis a qualidade, a quantidade e o preço, além do bom atendimento oferecido no local, com garçons falando inclusive o nosso idioma.
    Nestas viagens em grupo, sempre ocorrem alguns fatos que, por um motivo ou outro, posteriormente acabam sendo lembrados mais facilmente em algumas conversas. Depois do jantar, enquanto nos ocupávamos no quarto do hotel com as mais diversas coisas, seja arrumando a bagagem, lavando a roupa, montando o varal, olhando televisão, revisando o mapa e o roteiro, revendo algumas fotos, navegando na internet e enviando notícias aos amigos e familiares, o Sérgio, em conversa telefônica com a Paula, larga essa pérola: " ...pois é, a estrada é muito linda, precisamos voltar algum dia para rever com mais calma a região...bla bla bla...é um lugar mais bonito que o outro...bla bla bla...mas bah tchê, chovia tanto que, dos sete lagos, acabamos vendo apenas um lago e meio..."
    Buenas noches.
    Hospedagem: Hotel Ayres del Nahuel, email info@ayresdelnahuel.com.ar, Rua Rolando nº 147, San Carlos de Bariloche, Província de Rio Negro. Hotel com garagem, localização central e excelente atendimento. Diária em apartamento triplo Us$ 150,00.

    Quarta(04/01/2017)
    Dia 06: Bariloche (Arg)

    Hoje dormimos até mais tarde, nossa programação incluía este dia parado em Bariloche, apenas para descansar, trocar moeda, conhecer alguns lugares novos e curtir esta bela cidade. Logo após o café, o Charles pegou a moto e procurou uma oficina indicada ontem pelo atendente de portaria do hotel, enquanto que eu e o Sérgio saímos para olhar algumas lojas no centro e comprar ingressos para um passeio.
    A condição climática não tinha melhorado em nada, o mesmo vento de ontem, que também açoitou com força a janela de nosso quarto durante toda a noite, permanecia inalterado, soprando inclemente e trazendo consigo alguns respingos daquela chuva que estava presa entre as montanhas vizinhas a Bariloche. A consequência deste mal humor de São Pedro, associada com a fúria de Éolo (Deus grego dos ventos), novamente frustrou nossos planos. Primeiro tentamos comprar ingressos para o Cerro Otto, mas os fortes ventos cancelaram a operação do teleférico. Depois, onde viria a melhor parte do passeio, o vento, o frio e as pancadas de chuva nos fizeram desistir de percorrer de moto o Circuito Chico pela parte da tarde.
    Retornamos ao hotel para encontrar o Charles que havia deixado a moto na oficina, caminhamos mais um pouco pelo centro, fizemos algumas fotos, visitamos o Museu da Patagônia que está localizado no centro cívico e fomos almoçar. Encontramos um restaurante que nos serviu excelentes costelas de cordeiro com purê de batatas.
    Ainda saímos para trocar dólares por pesos chilenos em uma casa de câmbio no centro. Depois de algum tempo na fila descobrimos que a casa somente dispunha de um terço do dinheiro que necessitávamos. Como eu havia comprado uma boa quantia em Passo Fundo, passei a vez para o Sérgio. O Charles teria que esperar até mais tarde, pois o pessoal da casa de câmbio avisou que poderia entrar mais pesos chilenos ao decorrer do dia. Quando saímos, alguns cambistas nos abordaram oferecendo a moeda que procurávamos, refutamos e seguimos nossa caminhada pelo ventoso centro de Bariloche. Tentamos comprar alguns chocolates na tradicional fábrica da Mamuschka, mas a superlotação de estudantes tornava a missão quase impossível. Contentamos-nos em saborear outros chocolates em uma chocolataria artesanal menos badalada.
    No meio da tarde resolvemos caminhar até a oficina para ver como estava o serviço nos retentores da suspensão da moto do Charles. Ao chegarmos, avistamos a V-Strom no mesmo local onde havia sido deixada. Entramos na oficina e, depois de alguns desencontros e muito tempo perdido, fomos informados que o mecânico estava doente e não apareceu no trabalho (levaram o dia inteiro para notar isso? Ou não quiseram realizar o serviço?). Havíamos recebido a informação de outra oficina próxima e então o Charles levou a moto até lá enquanto eu e o Sérgio retornamos caminhando ao centro. Resumindo o assunto: o Charles peregrinou em vão o restante do dia, de oficina em oficina, tentando encontrar os retentores e a mão de obra para realizar o serviço.
    Em uma passada no hotel em que estávamos hospedados, enquanto aguardávamos um retorno do Charles, ficamos de prosa com o recepcionista do novo turno que se iniciara. O nome dele é Gabriel Salazar e também é motociclista. Nosso novo amigo tentou de várias formas ajudar, ligou para seu mecânico de confiança e este procurou as peças em todas as lojas possíveis na região, prometendo resolver nosso problema, realizando a troca, caso tivesse o repuesto en manos. Já era bem tarde quando o Charles retornou e chegamos a conclusão que nossas chances estavam esgotadas.
    Neste momento começamos a estudar a melhor solução para o impasse. Primeiramente o Charles decidiu abortar a parte da Carretera Austral, seguir diretamente ao Chile para tentar comprar os retentores em Puerto Varas em uma loja chamada Moto Rancho, onde seguramente, segundo várias testemunhas, haveria a peça. Por alguns minutos essa foi a decisão e o Charles já estava se preparando para tal mas, a sorte virou de lado quando iniciamos uma conversa com nosso grande amigo Hanno, de Rio do Sul, que também se encontrava, acompanhado de sua esposa, a Sandra, em viagem pela Carretera Austral e que estava, neste momento, em Villa O'Higgins, Chile. Ele estava com o mesmo problema, sugeriu que mantivéssemos os planos e, como relatado que o vazamento era pequeno, que a moto aguentaria o tranco, pelo menos até uma cidade maior, com mais recursos. Resolvemos arriscar e não perder a viagem! Neste meio tempo já acionamos o nosso amigo Juan Arenas em Santiago para ver quais opções teríamos no Chile.
    Passado o tema das oficinas, retornamos ao centro para, novamente, tentar trocar mais alguns dólares por pesos chilenos. Desta vez o Charles tirou a sorte grande ao chegar no caixa logo após um chileno ter trocado alguns pesos chilenos por moeda argentina. Mas ainda era pouco, caso não encontrássemos uma opção de câmbio ao longo da Carretera. Caminhando pela Mitre, achamos uma loja de artigos turísticos que fazia câmbio "não oficial" em uma sala reservada. Entramos e fomos bem atendidos por um argentino que falava muito bem o nosso idioma. Depois de uma boa prosa, o cambista nos disse que havia morado no Rio de Janeiro, na praia de Ipanema por alguns anos. O cambista foi muito honesto ao nos informar que as tarifas que ele estava praticando não eram boas e que nossa melhor opção seria trocar os dólares no Chile. Agradecemos sua preocupação e honestidade e trocamos mais alguma quantia assim mesmo, pois não sabíamos como seriam as localidades em que passaríamos nos dias seguintes.
    O Charles pediu para registrar aqui o nome de uma oficina onde o mecânico foi muito atencioso, demonstrando preocupação em resolver o problema dele, também ligando para vários contatos a procura da peça de reposição. O mecânico em questão é o Chiwi, com sua modesta oficina localizada na Rua Vinte de Setiembre nº 1055.
    Hoje, num rápido descuido enquanto fechava o baú, deixei o meu capacete cair de uma pequena altura que, acredito eu, não era superior a 30 centímetros, mas que foi suficiente para causar uma ruptura parcial no sistema de fixação e articulação da viseira com o capacete. Por muita sorte a pequena peça ainda ficou parcialmente operacional, permitindo a fixação da viseira quando esta se encontrava na posição "fechada" e a movimentação até o primeiro estágio de abertura, onde o espaço para entrada de ar fica restrito a míseros 1 ou 2 centímetros. Este pequeno descuido foi um incômodo pelo resto da viagem, dificultando a comunicação, a entrada de ar fresco em baixas velocidades, ocasionando embaçamento em dias úmidos e, sobretudo, me deixando preocupado por sua resistência (ou falta desta) ao vento, com a moto em velocidades mais elevadas em meio aos fortes ventos patagônicos.
    Mais tarde o Gabriel nos passou uma animadora previsão do tempo para o dia seguinte - os terríveis ventos diminuiriam bastante de intensidade e o sol, apesar das temperaturas permanecerem ainda muito baixas para a época do ano, brilharia com força naquele dia. Depois de outro bom jantar no "El Nuevo Gaucho" retornamos ao hotel para descansar. O dia amanhã promete, o caminho será novidade para todos e a expectativa é muito grande.

    Quinta(05/01/2017)
    Dia 07: Bariloche (Arg) - Perito Moreno (Arg) - 805 Km

    E a ventania parou! Mas o frio estava de rachar!
    Acordamos muito cedo, tomamos o café no quarto com as provisões que compramos no mercado no dia anterior, carregamos as motos, nos despedimos do Gabriel e partimos em direção ao sul. A saída foi tranquila, tínhamos um mapa da cidade e o GPS funcionando perfeitamente, com isso, em poucos minutos estávamos novamente percorrendo a Ruta 40, nossa companheira já a alguns dias.
    Este pedaço da Patagônia é incrível, a estrada sinuosa contorna vales, montanhas e alguns lagos, passa por dentro de parques nacionais com densas áreas florestais muito bem preservadas, nos convidando a desacelerar a moto e seguir devagar, aproveitando cada metro desta estupenda paisagem da melhor forma possível. Passeamos com nossas motos até a localidade de El Bolson, onde paramos somente para abastecer e tirar a água do joelho. Certamente este foi o trajeto mais bonito de hoje mas que, devido ao intenso frio que fazia congelar até nossa respiração na viseira do capacete, pouco paramos para registros fotográficos, nos restringimos apenas a observar lentamente a paisagem que passava diante de nossos olhos. Esta região é repleta de pousadas e áreas de camping, deixo assim a dica para um próximo passeio na região, principalmente para quem já conhece Bariloche e esteja com vontade de um bom descanso junto à natureza.
    O trajeto adiante de El Bolson continua belo, talvez menos exuberante, mas ainda com muito apelo aos olhos do viajante. Passamos por Esquel e não abastecemos as motos pois o posto fica alguns quilômetros fora da rota, já na entrada da cidade. A próxima parada seria num pequeno povoado chamado Tecka, onde apenas existem algumas casas, uma ou duas pousadas e um posto de gasolina. Assim que encostamos as motos na estación de servicio YPF percebi que as bombas estavam amarradas com sacolas plásticas, passei o olho uma por uma e percebi que essa era a situação de todas. Depois de alguns instantes, somente para confirmar minha dúvida, apareceu um frentista e informou que não havia combustível. Já estávamos com 240 quilômetros rodados desde o último abastecimento, nossos tanques extras de 5 litros ainda estavam vazios, pois, até agora, o abastecimento estava normal em toda Argentina. Encostamos as motos, fomos ao banheiro, fizemos um lanche e tomamos água enquanto avaliávamos a situação, pois a próxima cidade estava a 85 quilômetros de distância e também não sabíamos se havia combustível por lá, esta seria nossa última janela possível com a autonomia que dispúnhamos. Neste meio tempo percebo encostar um carro com um casal argentino que vinha do sul, aproveitei a sua parada para indagar de onde vinham e se tinham conhecimento de como estava a questão da gasolina em Gobernador Costa. A resposta foi reconfortante - "si, hay, yo cargué combustible alla" - disse a mulher que dirigia um Renault Clio de cor branca.
    Mais aliviados com a certeza que a viagem continuaria por hoje, subimos nas motos e seguimos devagar (para poupar nafta) pelos 85 quilômetros que restavam até Gobernador Costa. Nestas ermas paragens, cada placa de posto de gasolina que avistamos é uma imensa alegria e, quando a luz da reserva vem sinalizando já a um bom tempo, a alegria é maior ainda. Por mais que tivéssemos que aguardar novamente na fila para encher o tanque da moto e o tanque extra de 5 litros. Ainda era cedo e já havíamos percorrido quase metade do planejado para o dia, então resolvemos fazer um chimarrão, comer mais uma barrinha de cereal e nos aquecer no sol enquanto descansávamos um pouco das várias horas de pilotagem no frio. Nesta parada um senhor que vendia cerejas frescas nos ofertou algumas para que provássemos. Avisei que não havia como levar uma fruta tão sensível, mas mesmo assim ele insistiu que, ao menos, provássemos. Que sabor! Eu jamais havia comido uma cereja tão deliciosa como estas vendidas ali na rua e que foram produzidas na capital argentina da cereja, a pequena cidade de Los Antiguos.
    A esta altura do dia a temperatura já estava mais amena, subimos nas motos e seguimos mais confortáveis para desbravar mais um pedaço de Patagônia. Andamos mais alguns metros e fomos parados pela Gendarmeria Nacional, mandaram encostar as motos, pediram para retirar os capacetes e para verificar os documentos, repetiam para todos, várias vezes, as mesmas perguntas e então, depois de alguns minutos parados apenas proseando sobre futebol e praias do Brasil com os viventes de verde, seguimos viagem. Logo a estrada virou para a direita e o vento começou a mostrar, mesmo que fracamente, suas garras. Mais alguns quilômetros adiante, depois de cruzar uma região bem inóspita e com fortes ventos, chegamos a Rio Mayo, uma pequena cidade construída também em um pequeno vale, ficando assim parcialmente protegida de toda fúria dos ventos que aqui sopram. Abastecemos, tomamos um café para espantar o sono e seguimos viagem até Perito Moreno. Facilmente achamos o hotel indicado pelo Hanno, nos alojamos, desta vez, eu e Sérgio num quarto e o Charles em outro pois era a única configuração disponível no momento. Depois de um banho, subimos nas motos e nos dirigimos ao posto de combustível na estrada para abastecer as motos e tentar uma conexão coma internet já que o hotel estava sem no momento. O posto também estava sem internet e então fomos até uma antiga cafeteria para tentar uma conexão. Agora sim, conseguimos contato com a família e de quebra tomamos mais um café.
    Hoje, logo após El Bolson, a V-Strom do Charles apresentou um grande problema elétrico, desligando completamente o painel (luzes indicadoras, velocímetro, conta-giros, marcadores de combustível e temperatura do motor), luzes de freio, de indicação de direção (pisca-pisca) e sinaleira. Como a moto estava funcionando e a verificação seria demorada, pois teríamos que desmontar toda bagagem para acessar a caixa de fusíveis, resolvemos tocar assim mesmo até Perito Moreno, nosso destino de hoje, onde, com mais tempo, teríamos também mais tranquilidade para avaliar e procurar a fonte do problema. Após este último café que tomamos durante a peregrinação do wi-fi, iniciamos a inspeção na moto e logo achamos um fusível de 15 ampéres queimado. Substituímos, ligamos a moto e tudo estava funcionando maravilhosamente bem, foi um grande alívio.
    O vento estava fortíssimo e o sol encoberto por nuvens, às vezes até alguns pingos de chuva desciam para nos avisar que a situação não estava fácil naquelas baixas latitudes patagônicas. Recolhemos-mos ao hotel para fugir do frio enquanto aguardávamos o Hanno e a Sandra que vinham do Chile via Paso Robalos. Eram 21 horas e a noite ainda não havia chegado quando percebemos o casal encostar a moto na garagem do hotel, nos relataram que a viagem foi bela, porém foi duríssima, com frio e estradas péssimas, mas que valeu a pena. Conversamos muito, tomamos algumas cervejas, jantamos bem e compartilhamos de excelentes momentos com estes estimados amigos de Rio do Sul. Neste dia também encontramos alguns gaúchos de Julio de Castilhos que viajavam de carro, já estavam retornando de Ushuaia. Recolhemos-nos cedo, o dia foi forte para toda a turma.
    Hospedagem: Hotel e Restaurante Americano, www.hotelamericanoweb.com.ar, email consultas@hotelamericanoweb.com.ar, Avenida San Martín nº1327, Perito Moreno, Província de Santa Cruz. Acomodações simples e bom restaurante. Diária em quarto duplo Us$ 55,00.

    Sexta(06/01/2017
    Dia 08: Perito Moreno (Arg) - Puerto Rio Tranquilo (Chi) - 268 Km

    Na hora marcada (e não lembro qual era) estávamos todos no restaurante do hotel para tomar café, trocar mais algumas palavras e despedir-se do casal Spieweck. A dupla seguia hoje pela Ruta 40, já retornando para casa, até Bariloche. Aproveitei e deixei o contato do Gabriel do hotel Ayres de Nahuel, pois além do atendimento ser ótimo por parte de todos funcionários, do hotel estar bem localizado e ter garagem, ainda tinham da camaradagem do amigo motociclista para compartilhar. Enquanto acomodávamos as bagagens nas motos, surgiram alguns imprevistos mecânicos e por isso retardamos em quase uma hora nossa partida.
    O Charles amarrou um pano na bengala esquerda para diminuir o risco do óleo que escorria chegar aos discos de freio ou mesmo até aos pneus e ligou a moto para aquecer o motor, fazia muito frio no momento. Após alguns segundos de funcionamento escutamos um pequeno ruído e lá se foi aquele fusível novo que havíamos substituído no dia anterior, estava tudo apagado novamente. Desta vez verificamos mais itens e o Charles percebeu um superaquecimento na caixa de fusíveis, pontualmente no fusível queimado e onde também estava ligado um acessório extra, o aquecedor de manoplas. Também notamos um ruído na ligação da base do GPS à bateria e então resolvemos desligar definitivamente todos estes apêndices elétricos. Colocamos um fusível novo e, depois de alguns segundos, lá se foi ele para o espaço. Nossa conclusão é que algum dano mais sério já fora causado ao chicote elétrico e não nos restava mais nada a fazer, pois ficar parados ali no meio da Patagônia não resolveria nosso problema. Conformados, seguimos viagem assim mesmo, torcendo para não verificarem estes itens em alguma ação policial na estrada. Por sua vez, o Sérgio percebeu que seu "top case" estava solto e necessitava reparos, como demoraria muito desmontar toda parte traseira da moto para verificar que tipo de dano havia ocorrido, desmanchei minha bagagem e peguei uma das fitas de amarrar carga que carrego, são as mesmas que fixam a moto em sua caixa original quando esta chega à concessionária, cortesia da Beto Motos Suzuki de Passo Fundo. O serviço ficou tão bom que durou até o final da viagem, sem ao menos necessitar de reapertos. Enquanto isso, eu aproveitei para ajustar e lubrificar a corrente de transmissão.
    Liquidado o assunto manutenção e, sob um lindo dia de sol, colocamos as motocas na estrada. Viramos a esquerda no mesmo acesso da chegada de ontem e percorremos nossos últimos quilômetros em território argentino passando por lugares belíssimos, em grande parte com o lago Buenos Aires a nossa direita. Enfim chegamos à Los Antiguos, a última cidade argentina que passaríamos nesta primeira fase da viagem. Apesar dos poucos quilômetros rodados, aproveitamos para completar o nível dos tanques de gasolina. O Sérgio e o Charles usaram o posto YPF enquanto eu usei a gasolina extra de meu galão suplementar pois, como já ouvira em alguns relatos, não é permitida a passagem com combustível extra nas aduanas. Achei muito interessante este pequeno povoado, tem uma boa infraestrutura ao viajante, parece acolhedor e tem um camping, aparentemente bem estruturado, com uma bela vista para o lago.
    Não perdemos muito tempo na cidade e logo nos dirigimos até a primeira aduana para realizar os trâmites de saída da Argentina. Nela já encontramos uma galera em motos próprias e alugadas, alguns europeus e argentinos, mas nenhum brasileiro. Levamos cerca de 15 a 20 minutos para terminar o processo e assim prosseguir com a parte burocrática da viagem até a aduana chilena, que está localizada alguns quilômetros mais adiante. Enquanto esperava um dos companheiros, fui até a parte de fora da aduana para realizar alguns registros fotográficos, me posicionei de costas para a unidade fronteiriça, "bati algumas chapas" do lindo vale, algumas destas com a bandeira da Argentina ao fundo, a qual se encontrava bem "nervosa" pelo vento que soprava no momento. Ao me virar para retornar à aduana, o Gendarme já estava pronto para me mandar baixar a máquina, mas precisou engolir a ordem quando viu que a mesma já se encontrava baixada e com a tampa da lente em seu devido lugar. Desta vez me adiantei e não levei uma advertência das autoridades!
    Chegamos à aduana chilena com muito vento e então paramos as motos em um lugar que julgamos seguro e abrigado do mesmo. Apressamos-nos para entrar na fila formada, pois logo atrás de nós vinha um grande grupo com motos alugadas para também realizar o ingresso. Depois de alguns minutos na fila recebemos a informação que uma moto havia caído, fomos verificar e era a moto do Charles. Fiquei aguardando na fila para preservar o lugar dos amigos e logo terminamos de preencher e carimbar a papelada. Retornamos ao estacionamento para passar as motos pela revista onde fomos obrigados a desmontar toda a bagagem e levar até o raio-X para averiguação. Durante esta revista o funcionário me indagou se havia ou não combustível no galão, mesmo com a minha negativa ainda deu umas batidas com o dedo para se certificar de minha resposta. Feita a revista, paramos as motos no segundo estacionamento da aduana para arrumar a bagagem, comer uma barrinha de cereais e tomar aquela água para empurrar a barrinha. Neste momento, após a revisão da moto, o Charles informa que está tudo bem e que houve danos em apenas dois acessórios - a trava de acelerador e a base do baú. Quanto à trava do acelerador não havia o que fazer, era de plástico e estava completamente quebrada, já a base do "top case", apenas quebrou o engate central que liga ela com o baú, problema fácil de resolver com algumas cordinhas extras que sempre carregamos.
    Atravessamos devagar a pequena cidade de Chile Chico, aproveitando para reparar bem nos detalhes desta simpática localidade que está às margens do mesmo lago que nos acompanhava na Argentina, porém agora denominado "Lago General Carrera". Assim que termina a cidade, acaba também o asfalto da Ruta 265 e então começamos a rodar devagar, contemplando com mais atenção cada metro desta linda região. Andamos apenas 20 quilômetros e logo fomos obrigados a parar para colocar os trajes impermeáveis, pois, desta vez, a chuva anunciada no horizonte parecia estar convicta de não esmorecer na próxima curva, como havia sido até então. Decisão acertada, pois ela iniciou forte e continuou alternando de intensidade até o final do dia, sem jamais parar por completo.
    Ainda não estamos sobre a Carretera Austral propriamente dita, mas este trecho de rípio já nos dá ideia do que enfrentaremos nos próximos dias. As paisagens são fenomenais, muitas montanhas e águas pelo caminho, uma natureza muito exuberante mesmo. O terreno muda a cada quilômetro, com rípio solto ou compactado, às vezes sem rípio ou ainda com algumas pedras grandes sobre a estrada, mas sempre se mostrando um caminho confiável, sem atoleiros ou trechos "off road", nos passando uma grande tranquilidade por pior que fosse a condição climática que enfrentássemos. Entre uma diminuída e outra na intensidade da chuva, aproveitávamos para parar e fazer algumas fotos. A região é fantástica e requer tempo e paciência para ser aproveitada com qualidade. Lembrem do que comentei anteriormente durante a passagem pelo rípio da Ruta 40 - velocidade baixa e muita atenção levam o piloto e equipamento inteiros ao destino. Durante o trajeto intercalamos ultrapassagens com o grupo das motos alugadas, todas Yamahas XT 660, até que, num certo ponto, passamos e não nos vimos mais. Logo no início do deslocamento passamos pelas instalações de uma grande mina de ouro, um local até bonito de ver, se não fosse pela tristeza de saber que, provavelmente, a mineração deva causar um sério dano ambiental a este lindo pedaço da Patagônia chilena.
    Já estávamos rodando a um bom tempo sob chuva forte quando adentramos Puerto Guadal, um pequeno povoado com poucas casas e uma opção de hospedagem que vimos ao lado do mercadinho onde paramos para nos abrigar da chuva, usar o banheiro, descansar e fazer um bom almoço na base de presunto, queijo, pão e iogurte. Era cedo, faltava muito pouco e então abusamos da pausa para ver se a chuva abrandava. Por enquanto as únicas indicações que achamos na estrada eram para Cochrane, uma cidade mais ao sul e por qual não passaríamos, mas com o GPS funcionando bem e um bom mapa rutero da Copec em mãos, nem nos preocupávamos com as tais placas. Seguimos viagem com a mesma chuva, o trecho ainda estava muito bom de andar, com rípio bem compactado até que, finalmente, chegamos ao entroncamento da tão esperada Ruta 7 - A Carretera Austral. Então viramos a direita e seguimos por caminhos um pouco mais estreitos, tortuosos e com rípio solto até chegar ao nosso ponto final do dia, o pequeníssimo povoado de Puerto Rio Tranquilo.
    Na maioria das vezes, quando chegamos ao lugar de pernoite, antes mesmo de procurar o hotel, já passamos no posto de gasolina e deixamos as motos com os tanques completos para seguir viagem no dia seguinte. Ao chegarmos à estación de servicio de Rio Tranquilo fomos informados que não havia gasolina, mas que o caminhão descarregaria ainda nesta noite ou amanhã pela manhã. Não tendo mais o que fazer ali, procuramos as cabanas indicadas pelo Hanno e nos instalamos na última unidade disponível, bem ao fundo do pátio. Descarregamos as motos e imediatamente tentamos acender o fogo no aquecedor a lenha para iniciar o processo de secagem do vestuário, mas a madeira úmida teimava em somente produzir fumaça, então chamamos a senhora responsável pela propriedade e esta, com ajuda de alguns gravetos e papéis secos, tocou fogo no pequeno fogão/aquecedor. Nossa alegria não durou muito, a madeira era bem ruim, queimava muito rapidamente e, ao menor descuido nosso, o fogo virava apenas um amontoado de cinzas dentro da câmara do aquecedor. Pedimos ajuda mais uma vez e, de agora em diante, tratamos de cuidar do fogo com mais afinco. A próxima novela foi na hora de tomar banho, girávamos a torneira indicada como caliente e nada da água quente aparecer. Novamente apelamos para a senhora que, não logrando êxito em suas tentativas, terminou chamando seu marido para tentar ligar o aquecedor de passagem de água. Depois de uns 30 minutos trocando pilhas, gás e desmontando e remontando o aparelho, o Sérgio, mesmo contrariando o dono da pousada, decidiu ligar a torneira de água fria e então...voilá, o aquecedor liga e aquece a água. Buenas, parece que esta era a única cabana com o registro de água quente do lado direito, inverso ao padrão das outras. Não pensem que estou reclamando, estou apenas ilustrando algumas passagens cômicas destas viagens em grupo, afinal tomamos um bom banho quente com água forte e abundante e aquecemos perfeitamente a cabana, gerando o calor necessário para aquecer também o ambiente e secar um pouco as nossas roupas e calçados.
    Enquanto o Sérgio tomava banho, aproveitamos, eu e o Charles, para lubrificar e ajustar as correntes das motos. Nossa transmissão completa (coroa, pinhão e corrente) foi substituída por completo praticamente na mesma época, quando preparávamos as motos para a viagem de Ushuaia no ano de 2015. Quando saímos para esta viagem elas já estavam com bons 15 mil quilômetros rodados e agora começavam a mostrar sinais de desgaste. Assustamos-nos com o estado que elas chegaram até aqui, totalmente secas, fazendo barulho e com folga excessiva. O terreno estava encharcado, foi necessário procurar uma boa pedra para apoiar o cavalete lateral e assim conseguir usar o nosso "macaco" para levantar a roda traseira, permitindo a lubrificação e, posteriormente, o ajuste da corrente. A partir de hoje e até o final da viagem, fomos obrigados a lubrificar e reapertar as correntes com mais frequência, sendo que o óleo spray, que antes colocávamos num intervalo de mil quilômetros, agora passamos a usar a cada 400 quilômetros e o tensionamento da corrente, que eu jamais havia feito, pois não fora necessário até pouco tempo, começou a ser diário, sempre após o término de cada etapa.
    Ainda em Perito Moreno fomos alertados pelo Hanno sobre o consumo excessivo das pastilhas de freio quando rodamos na Carretera com chuva por longos períodos de tempo, ele foi bem enfático - com chuva poupem os freios, usem o motor para reduzir a velocidade. Caso não tivéssemos seguido este conselho, talvez este fosse outro problema que nos preocuparia durante a viagem. As finas partículas de pedra entram por tudo! Este "pó de pedra" lixa até os protetores de motor quando estes são pintados e também formam uma espécie de pasta, acumulando-se por tudo, inclusive nas pinças de freio. Na minha moto eu notava o freio oscilar de funcionamento bruscamente, era a maior loucura na hora de diminuir ou parar a moto, ora eu necessitava acionar até o fim o manete, encostando inclusive no acelerador, ora o mecanismo estava tão duro que um simples toque acionava de forma abrupta o conjunto duplo dianteiro. Após uma boa lavada com água tudo voltava ao normal. A Tiger do Sérgio, com seus 30 mil quilômetros, não apresentou nenhuma alteração no funcionamento dos freios e tampouco o desgaste acentuado no sistema de transmissão.
    Ainda pela parte da tarde fomos até onde estão localizadas as empresas de turismo e contratamos um tour para hoje mesmo até as Capillas de Mármol. Como já era tarde e para aproveitar que a chuva havia parado não esperamos fechar o grupo, sacramentamos o negócio por Us$ 80,00 em um barco exclusivo para nós e nos dirigimos até as estruturas. O passeio leva cerca de uma hora e meia, conta com dois guias que nos informam sobre os diversos dados deste patrimônio natural chileno e passa praticamente por três tipos de estruturas batizadas de Capelas de Mármore, Cavernas de Mármore e Catedral de Mármore, todas formações minerais de carbonato de cálcio e que são moldadas diariamente pela ação erosiva do vento e das águas do Lago General Carrera. Como um "extra" do passeio, ainda observamos num rochedo próximo, o planar de uma dupla de condores.
    Após um dia repleto de novidades, cansados e com frio, encerramos a noite degustando um farto, porém não muito apetitoso, ceviche, acompanhado de um delicioso pisco sour, tudo preparado com muita rapidez por um peruano radicado no sul do Chile. O garçom falava na mesma rapidez com que andava entre as mesas do pequeno restaurante...alucinado!
    Retornamos a nossa pequena e simples cabana, onde dormimos nas confortáveis e limpas camas que nos foram disponibilizadas.
    Hospedagem: Cabañas Martina, Rua Exploradores, próximo a uma pequena igreja de madeira. Acomodações sem internet, muito simples, porém confortáveis, calefação a lenha, não serve café da manhã e tampouco material de higiene. Diária para três pessoas Us$ 75,00.

    Sábado(07/01/2017)
    Dia 09: Puerto Rio Tranquilo (Chi) - Coyhaique (Chi) - 230 Km

    Dormimos muito bem à noite, pois as camas eram boas e cabana estava bem aquecida, aliando isso tudo a um dia de pilotagem com chuva em estrada de chão, nem percebemos se algum cão latia pela redondeza. No momento não chovia, mas o tempo estava fechado na hora em que saímos com as motos da pousada. Quando chegamos ao posto de gasolina já havia combustível, mas ainda uma pequena fila se fazia presente, pois muitas pessoas estavam completando seus estoques de combustíveis, enchendo tanques extras, alguns bem generosos com até 250 litros. Enquanto aguardávamos na fila eis que aparece uma turma de uruguaios, eles estavam parados no povoado já a dois dias aguardando uma melhora do tempo. Durante esta espera, ambos trocamos algumas informações sobre os trechos que já passamos, pois eles estavam descendo e nós subindo, cada qual contribuindo com dicas valiosas sobre o caminho que cada grupo teria pela frente. Também descobrimos que a maioria da turma deles vive em San José, uma cidade próxima a Trinidad, onde temos grandes amigos e que outro motociclista era de Colônia. Com a descoberta o papo ficou ainda mais divertido, fizemos algumas fotos, trocamos adesivos e nos despedimos do alegre grupo. Como as "Cabañas Martina" não ofereciam desejum, nosso café da manhã foi no posto. Depois de encher os tanques, comemos cachorros quentes com um bom café americano comprado ali na loja de conveniência e retornamos à nossa jornada.
    No início do deslocamento a estrada recém patrolada estava ótima, mas em pouco tempo já ultrapassamos a motoniveladora e o rípio voltou a ser normal (ora solto, ora firme, ora com buracos, ora com as calaminas). Mesmo com alguns pingos de chuva insistindo em cair isoladamente, paramos muito para fotografar durante o caminho, pois eram muitas cachoeiras ao lado da estrada, vales lindíssimos, várias montanhas nevadas e muito verde no entorno. Passamos por uma localidade chamada Puerto Murta (ou Bahia Murta), onde a estrada possuía um túnel verde formado por algumas árvores. Neste trecho levei um pequeno susto: o mesmo caminhão de combustível que abastecera Rio Tranquilo estava parado logo após a cabaceira de uma ponte, em uma curva, desviei um pouco minha atenção para ele e quando me dei por conta já estava saindo do trilho de rípio firme, foi quando encostei a roda dianteira na borda do rípio solto e esta imediatamente enterrou, adernando a moto para a esquerda a ponto de quase me levar ao chão. Não caí por estar em baixa velocidade, pois quando a dianteira deitou para a esquerda, tive tempo de colocar o pé no chão, acelerar a moto para a roda desatolar das pedras soltas e reassumir o controle, colocando a mesma novamente na posição vertical e dentro do trilho seguro. Aproveito outro "causo" ocorrido no mesmo dia para, novamente, reforçar o tema segurança: em uma longa reta sem pavimentação o terreno estava ótimo, sem pedras soltas, permitindo assim uma pilotagem na casa dos 100 km/h caso fosse desejado. Acredito que no momento eu vinha a módicos 60 km/h quando olhei alguns metros a minha frente e percebi um pequeno filete de água que atravessava a estrada, ele não tinha mais que meio metro de largura, eu já vinha devagar e então, por precaução, engatei primeira marcha e quase parei para passar. A minha surpresa foi que o "pequeno filete" era bem profundo, a roda dianteira afundou e passou num rápido tranco, pois mantive a aceleração constante enquanto que e a traseira afundou até a metade e parou, pois a moto ficou presa na valeta, apoiada sobre a proteção do motor. Certamente, se eu viesse um pouco mais rápido, o desfecho poderia ter sido diferente! O Sérgio e o Charles, que vinham imediatamente atrás, reduziram e escolheram um local mais raso para passar com segurança e sem sustos. Posteriormente me confidenciaram que a cena da moto afundando naquela longa reta foi muito engraçada.
    O pessoal do Uruguai havia nos alertado sobre a precariedade dos últimos 20 quilômetros que teríamos de rípio no dia de hoje, inclusive um disse que chegou a chorar, pois parecia que aquele tormento não parecia ter fim. O trecho estava em obras, com algumas máquinas na estrada, muitas pedras soltas, sendo algumas destas de considerável tamanho, realmente um grande desafio para manter a moto no caminho certo. Com muita cautela e rodando bem devagar vencemos esta etapa sem maiores problemas. Hoje, ainda em estrada de chão, presenciei outra cena fora dos padrões com quais não estamos acostumados: ao contornar uma curva avisto um grande grupo de ciclistas descansando ao sol, com suas bikes completamente carregadas e encostadas nas proteções laterais da estrada. Até aí tudo normal, pois são vários os ciclistas que encontramos pedalando sozinhos ou em grupo, desde a Ruta dos Sete Lagos até aqui a Carretera Austral. O fato que realmente me chamou a atenção foi que entre todos que estavam ali descansando e lanchando, também havia uma ciclista amamentando uma criança muito pequena, um bebê de colo e que certamente viajava junto a ela, de bicicleta, por aquela estrada "casca grossa" em uma região bem inóspita. Somente para concluir o pensamento, não imagino mais ninguém, que tenha lido algum livro do Amyr Klink e assistido ao vivo a mencionada cena, ousar em chamar de aventura uma viagem destas, realizada com um veículo potente, confiável e seguro como as motocicletas que pilotamos!
    Após 120 quilômetros e duas horas pelo rípio chegamos à pequena vila de Cerro Castillo. Paramos na entrada do povoado para fazer uma foto e nos dirigimos até um pequeno restaurante onde já havia duas motos com placas dos Estados Unidos estacionadas. Sem mesmo descer das motos conversamos entre nós, ninguém estava com fome e então decidimos seguir viagem sem almoçar. Acenamos aos motociclistas que estavam em uma mesa próxima à janela, ligamos as motos e cumprimos os últimos 100 quilômetros que restavam até Coyhaique por uma excelente estrada pavimentada.
    Chegando à Coyhaique paramos no primeiro posto para abastecer, aproveitei e já joguei no GPS o endereço da loja que nosso amigo Juan Arenas, da capital Santiago, havia nos passado para procurar, pois ele já havia feito contato prévio com alguém de lá e sabia que tinha em estoque o retentor da suspensão para a moto do Charles. Nossa única dúvida é se encontraríamos a loja aberta, pois já eram 15 horas de um sábado e o comércio estava fechado desde as 13 h. Rodamos por algumas ruas do centro e o GPS não nos levava a lugar nenhum, então resolvi pedir ajuda para um motociclista local que estava saindo de casa em uma Yamaha XJ6. Prontamente a dupla de irmãos subiu na pequena de 4 cilindros e nos levou até o endereço solicitado, porém, quando chegamos lá, a mesma já estava fechada. Inconformados, a dupla ainda tentou ligar para os telefones da loja, mas de nada adiantou. Com a ajuda e boa vontade deles ainda procuramos outra oficina da qual tínhamos informações, a de um colombiano que residia por lá e que trabalhava com motos de maior porte. Esta se encontrava aberta, o mecânico estava trabalhando, mas não tinha a peça para vender. A moto do Charles seguia vazando pouco óleo, porém ainda estava funcionando perfeitamente e então decidimos abortar o reparo aqui, pois além de ter que esperar até a segunda-feira para comprar a peça, o mecânico, conforme nos repassou o Juan, ainda alertou que necessitaria de mais dois dias para efetuar a troca de óleo e retentores. Evidente que não dispúnhamos de tanto tempo!
    Rodamos mais um pouco pela cidade até encontrar, ainda com a ajuda do motociclista, o hotel em qual nos hospedamos. Ajustei e lubrifiquei a corrente ainda na frente do hotel e depois guardei a moto na garagem. Enquanto fazíamos o check in no hotel também chegaram alguns brasileiros que estavam viajando em duas ou três camionetes, agora não lembro corretamente, eles nos relataram que também estavam viajando a dias com muito frio e chuva e que os veículos, por carregarem as barracas de teto, vinham consumindo combustível em demasia.
    Ainda era cedo para o jantar, o restaurante do hotel demoraria cerca de uma hora para iniciar as atividades, então sentamos no confortável saguão para tomar um mate e estudar nos mapas e nas páginas da internet o nosso dia de amanhã. Conversamos um pouco com os brasileiros que estavam por lá, lemos alguns jornais e continuamos a revisar nossas mensagens privadas e páginas nas redes sociais. Demoramos um pouco para isto, pois no dia anterior em Rio Tranquilo, não havia internet disponível em nenhum lugar que passamos. Já prevendo esta falta de comunicação em algum momento, antes mesmo de partir tranquilizei familiares e amigos, alertando que talvez ficássemos um ou dois dias sem enviar notícias por falta de conexão e que, portanto, não era para ficarem preocupados. Hoje também recebi uma foto do Hanno e da Sandra, estavam na companhia de nosso amigo Gabriel, no hotel em Bariloche.
    Assim que o restaurante abriu já ocupamos uma mesa e pedimos uma parrillada para três pessoas. Enquanto aguardávamos eu tomei uma cerveja belga artesanal, o Sérgio um bom pisco sour e o Charles, como sempre, uma coca cola. Quando a refeição chegou ficamos apavorados com a quantidade de comida oferecida, acredito que tinha carne e entranhas suficientes para seis pessoas. Também foi servido como acompanhamento um delicioso pão frito, coisa que até então eu não havia comido aqui pelo Chile. O Sérgio relatou que o pão parecia com o que ele havia provado na Isla Flotante de Uros, no lago Titicaca, na cidade de Puno, durante nossa viagem ao Peru em setembro de 2013. Das duas churrasqueiras que foram colocadas à mesa, apesar de toda fome que tínhamos, conseguimos liquidar apenas com uma. Descemos para jantar bem à vontade, com nossas roupas amassadas e de chinelo de dedo. Em outra mesa ocorria aparentemente uma festa de aniversário ou revelação de amigo secreto, com muita gente bem arrumada e efusivas trocas de presentes. Enquanto isso, depois que nos foi servida a refeição, a gordura das carnes, principalmente das entranhas (tripa gorda, chinchulines, rins, etc), escorria sobre o braseiro e produzia, inicialmente, uma discreta fumaça. Assim que terminamos a refeição notamos que o chefe do restaurante se apressou em retirar o que não havíamos comido, também foi quando percebemos que todo o restaurante estava tomado por uma densa "névoa" que fora produzida pelo nosso churrasquinho. Nossas simples roupas sintéticas ficaram imprestáveis, impregnadas com o cheiro daquela gordura, imaginem então as roupas de lã e mais pesadas utilizadas pelo pessoal que estava ali confraternizando.
    Antes de retornar ao quarto, saímos para caminhar um pouco e comprar água em um mercado próximo. Quando adentramos novamente o hotel, percebemos que o ambiente estava com o ar saturado pelo cheiro e pela fumaça produzida pela graxa queimada, inclusive o segundo andar, bem distante do restaurante e onde estava localizado o nosso quarto. Este seria outro "causo" de nossa viagem e o qual ainda damos boas risadas até hoje (não sei o que pensaram os demais clientes).
    Hospedagem: Holel Los Ñires, Baquedano nº 315, Coyhaique, Região de Aysén, www.hotelosnires.cl, email ventas@hotellosnires.cl, acomodações três estrelas e ótimo restaurante. Diária em apartamento triplo Us$ 110,00.

    Domingo(08/01/2017)
    Dia 10: Coyhaique (Chi) - Chaitén (Chi) - 434 km

    Acordamos cedo, carregamos as motos e fomos ao café. Calmamente fizemos nosso desejum (acompanhados ainda do cheiro do churrasco de ontem), pagamos a conta e iniciamos nossa jornada diária pela Carretera Austral. O Hotel estava bem localizado, muito próximo ao acesso que teríamos que tomar, era pegar a Avenida General Baquedano e seguir em linha reta até a estrada. Rodamos poucos quilômetros e paramos no acostamento (adivinhem por qual motivo?), colocamos nossos trajes impermeáveis e aproveitamos para curtir um pouco da linda vista panorâmica de Coyhaique. Aproveitei a parada para fotografar algumas flores, neste caso específico, espécies de lavandas e "altramuces", flores estas que a dias embelezam e perfumam nosso caminho desde que saímos de Bariloche. Patagônia e Carretera Austral tem disso, além de encher os olhos de belas imagens, ainda somos agraciados com estradas que exalam um reconfortante perfume floral, tornando nosso dia ainda mais rico em novas sensações.
    A chuva nos acompanhou até Mañihuales, onde paramos para abastecer e descansar. Em um mirante que contemplava um grande vale, paramos para fazer algumas fotos e encontramos mais um grupo de brasileiros, desta vez uma gauchada de Porto Alegre. Aproveitamos o momento de prosa e já dividimos do bom chimarrão que a turma dos carros carregava. Rodamos pelo asfalto até o acesso à Puerto Cisnes, onde seguimos a Ruta 7 pela direita, retornando a mais um trajeto de rípio, bem no início no Parque Nacional Queulat. Acredito que este pedaço de estrada a seguir foi o mais difícil de toda viagem, oscilando entre subidas e descidas muito íngremes, com curvas muito fechadas (exagerando um pouco: "ao dobrar, enxergávamos até a placa de nossa moto"), em trechos que a floresta densa invade a estrada tentando recuperar o que um dia já foi seu, com diversas pedras soltas e um longo pedaço em obras, muito ruim mesmo. No pior momento levamos cerca de duas horas para percorrer apenas 50 quilômetros. A ironia de toda esta dificuldade? Valeu cada quilômetro percorrido, ninguém reclamou, as paisagens eram belíssimas, muitos bosques, altíssimas cachoeiras, montanhas, rios e um grande glaciar logo acima de um lugar chamado de Bosque Encantado.
    Após o trecho travado de montanha, seguimos por regiões mais baixas, onde as obras de melhorias da estrada já estavam em ritmo bem acelerado. Tivemos muita sorte em passar aí em um domingo, não havia ninguém trabalhando e tampouco interrupções no trânsito, como bem pude perceber ao ler algumas placas pelo caminho, avisando de paradas pontuais, com várias horas de duração, para que as máquinas trabalhassem e explosões fossem realizadas com segurança. Passamos a entrada onde está o serviço de Guarda Parques do PN Queulat, paramos, conversamos e resolvemos seguir, sem adentrar e visitar o Ventisquero Colgante como estava programado, chovia consideravelmente no local e já estávamos atrasados, pois pensávamos que teríamos rípio até Chaitén. Próximo a Puyuhuapi mais obras, desta vez o trânsito estava interrompido, mas não demorou muito para ser liberado e então seguimos a pequena fila de carros até o centro do pequeno povoado. Paramos ao ar livre, sob uma leve e fria chuva, para abastecer as motos em um modesto posto da Copec, com apenas duas bombas de combustível e um funcionário. O Charles aproveitou e comprou um novo e atualizado mapa rutero do Chile, uma lástima não haver outros disponíveis, pois este era a última edição e já contemplava os novos trechos asfaltados da Carretera.
    O trajeto entre Puyuhuapi até Chaitén foi o menos atrativo até agora, mas ainda muito agradável de percorrer, com trechos intercalados de rípio e asfalto. Ao nos aproximar de Chaitén vimos uma grande movimentação em cima de uma ponte e então resolvemos parar. Eram alguns pescadores tentando a sorte com um grande cardume de trutas que avançava rio acima, ficamos alguns minutos parados, analisando o cardume, vendo com que rapidez se alimentavam nas águas transparentes e nada do pessoal tirar uma da água para que pudéssemos ver o saboroso bichinho de perto. Ainda na margem do rio, pescava também um senhor ao lado de um grande e moderno motorhome com placas européias. Acredito que este viajante, ao se deparar com a beleza da região e com o grande cardume, estacionou o seu hotel de 5 estrelas, um poderoso caminhão Man preparado para longas e duras viagens ao redor do mundo e decidiu ficar por ali, tentando a sorte, passando o tempo, curtindo a paisagem e , quem sabe, providenciando algumas trutas frescas para o jantar. Perfeito!
    Paramos ainda mais uma vez, faltando 20 quilômetros de Chaitén, para o Charles lubrificar a corrente que estava fazendo muito barulho. Chegamos e fomos diretamente ao posto de gasolina, abastecemos e já me informei da localização do escritório da Transportes Austral. Chegamos aos últimos minutos de funcionamento para pegar nossas passagens que eu havia reservado pela internet, via e-mail, com uma funcionária, pois era a única forma de garantir o lugar sem fazer um pagamento adiantado e integral das passagens no sistema de vendas on-line da transportadora. Normalmente estas reservas para motos não são necessárias e, apesar de vários amigos nos relatarem que não era preciso reservar, mesmo assim fizemos. Realmente, o movimento estava fraco para a época e as balsas, apesar de partirem bem cheias, ainda não apresentavam lotação total. Ainda conseguimos adiantar o horário de partida de Caleta Gonzalo das 14 h para as 11 h, ganhando assim algumas horas de folga ao chegar a Puerto Montt.
    Facilmente encontramos as cabanas indicadas pelo Hanno, nos instalamos, tomamos banho e saímos para repor nossa ração de viagem (água, frutas, biscoitos) como também comprar nosso café da manhã para o dia seguinte. Aproveitamos também para pesquisar os lugares disponíveis para jantar e passear pela pequena cidade. A história de Chaitén envolve uma grande tragédia e também um pouco de descaso das autoridades chilenas com os alertas emitidos pela população. Vou contar agora o que ouvi de moradores de lá: "Em maio de 2008 houve uma grande erupção no vulcão Chaitén, localizado a 10 quilômetros da cidade. Esta erupção em si não causou muitos danos, mas liberou grande quantidade de cinzas no ar. Passaram-se dois meses da erupção e os moradores locais começaram a notar alguns indícios que algo estava errado, desde o comportamento de animais até o fato que alguns rios perenes estavam secando. O fato crucial foi que a erupção acabou represando uma grande quantidade de material na parte alta da montanha e, num dado momento, este dique rompeu-se e todo aquele aluvião composto de lama, pedras e árvores arrancadas desceu abruptamente atingindo em cheio o povoado." Eu e o Charles caminhamos hoje em uma nova praia formada por este aluvião, bem defronte à nossa pousada, uma praia de cinzas, pedra pome e troncos secos, onde, para chegar às frias águas do Pacífico, necessitamos percorrer uma distância superior a 100 metros desde a antiga orla. Também passamos por casas destruídas, algumas soterradas sob 1,5 metros de material do aluvião. Uma cena devastadora!
    Eram 22:00 h quando terminamos de jantar, o sol acabara de partir deixando para trás ainda alguma claridade sobre o sul do Chile, o frio estava aumentando e então resolvemos nos recolher à nossa cabana para o merecido sono depois de um longo dia pela Ruta 7.
    Hospedagem: Complejo Turístico Cabañas Brisas del Mar, Avenida Corcovado nº 278, Chaitén, www.brisasdelmarchaiten.cl, email cababrisas@hotmail.com. Diária para três pessoas Us$ 100,00.
    Escritório da Transportes Austral: www.taustral.cl, Rua Almirante Riveros nº 188 esquina com Juan Todesco, Chaitén. Contato com bbarria@taustral.cl ou nataly.soto@taustral.cl.

    Segunda(09/01/2017)
    Dia 11: Chaitén (Chi) - Puerto Montt (Chi) - 190 Km rodando e 6 horas em três balsas

    Chovera forte durante toda noite, novamente tínhamos um trecho desconhecido pela frente e por este motivo despertamos cedo, por volta das 7:00 h. Tomamos nosso café e partimos no ritmo da Carretera, bem devagar e parando para muitas fotos. Este trajeto entre Chaitén e Caleta Gonzalo tem 55 quilômetros de extensão e está em ótimo estado, contando apenas com 43 quilômetros de rípio de pequeno tamanho, bem compactado e sem buracos. As obras de asfaltamento parecem que estão em um ritmo forte e, provavelmente, em pouco tempo o caminho estará todo pavimentado, o que será uma grande lástima, pois, assim como está, a paisagem é de extrema beleza. Por algumas vezes comentamos que o caminho parecia-se muito com os cenários do filme "Jurassic Park", onde a estreita estrada, num dia nublado como o que estava, era invadida por enormes samambaias, sempre acompanhadas de uma outra planta que tampouco sei o nome, mas que possuía folhas enormes, com mais de um metro de largura. Para completar o cenário da mega produção, alie a tudo isto os diversos ruídos emitidos pelo ambiente (vento, rios e sons de alguns animais) e terá um cenário fenomenal!
    Chegamos ao ponto de embarque com muita sobra de tempo, praticamente 2 horas antes do marcado em nossas passagens. Havia somente uma camionete aguardando do lado esquerdo da rampa e então enfileiramos nossas motos ao lado direito da mesma, no sentido normal do trânsito. Posteriormente veio um "chefe" da Naviera Austral e pediu aos demais motoristas para seguirem a camionete, arrumando seus veículos atrás de nós, no sentido correto da via. O pequeno lugarejo chamado de Caleta Gonzalo possui uma parca infraestrutura para o viajante, com banheiros, uma pequena pousada e um bom restaurante (tão bom $$$ que nos reservamos somente a pedir uma água quente para o mate). O tempo parado não foi em vão, o lugar é lindo e então nos ocupamos apreciando a natureza enquanto dividíamos algumas cuias de chimarrão. Também travamos uma boa conversa com o simpático chileno da camionete e com um casal de franceses que viajavam de bicicleta, como também, por vários minutos, ficamos a observar um atrevido gavião que descia até os carros, sentando em seus espelhos retrovisores ou qualquer outro ponto de apoio disponível para pedir comida.
    A primeira balsa chegou e fomos orientados a passar na frente dos demais veículos para posicionar as motos nos cantos da embarcação. Subimos ao deck e procuramos abrigo do frio na cabine destinada aos passageiros. Aproveitamos o curto tempo deste primeiro trajeto para fazer algumas fotos e comer algumas frutas que eu carregava no baú da moto. Decorridos aproximadamente 30 minutos, a balsa inicia o processo para atracar na Península de Huequi, onde um pedaço de 10 quilômetros de ótimo rípio nos leva até o próximo ponto de embarque. Ainda sobre a primeira balsa, da posição em que estava, percebo que uma pesada nuvem de chuva estava se aproximando de nós e então já coloco o traje impermeável para sair pronto. O Sérgio e o Charles não haviam percebido a tempo e foram obrigados a parar tão logo que desembarcaram, pois no momento a chuva já estava muito forte. Segui devagar, acompanhando o fluxo para garantir o embarque deles caso demorassem muito para vestir seus trajes.
    A segunda embarcação era muito maior e dispunha de uma excelente cabine para passageiros, com uma cafeteria ao centro, boas poltronas e até mesas para realizar alguma refeição. Neste momento sabíamos que o trajeto era mais longo e que demoraríamos entre 4 a 5 horas para desembarcar em Hornopirén. Preparamos um bom café (a cafeteria ainda não havia aberto) com os apetrechos que carregávamos nas motos, ajudando assim a espantar o sono e o frio que tentavam atrapalhar nossos planos. Porque não dormir? Porque, como toda a Carretera, o trajeto é lindo e não merece ser desperdiçado!
    Após a abertura da cafeteria ainda aguardamos a fila diminuir para então matar a nossa fome. Eu pedi um pastel e um delicioso apfelstrudel, fiquei tão ocupado com os quitutes que nem lembro o que os demais comeram. Nesta segunda viagem de balsa ocupamos nosso tempo fotografando, caminhando pelo deck e conversando com um mochileiro brasileiro de nome Douglas que, ao nos reconhecer como compatriotas, logo veio a nos fazer companhia. O Charles ainda fez uma visita à cabine de comando no último andar do barco. O trajeto é repleto de atrações: muito verde, cachoeiras, montanhas nevadas, pequenos e pitorescos povoados às margens do pacífico, tanto na parte continental como na grande ilha de Llancahue e muita atividade econômica relacionada ao mar, como cultivo e extrativismo de mariscos (incluo aqui todas aquelas conchas comestíveis) e cultivo de salmões.
    Desembarcamos em Hornopirén e seguimos até Caleta Puelche por trechos que oscilavam entre asfalto e rípio solto. Num dado momento levamos outro susto: vínhamos por uma subida em uma tocada por volta dos 110 km/h quando, repentinamente, bem no ápice desta, o asfalto acaba e entramos, nesta velocidade, em um terreno de rípio muito solto. A moto parecia surfar por conta própria, suavemente sobre os seixos bem polidos deste último pedaço da Ruta 7 e, com muito sangue frio, deixei ela diminuir de velocidade naturalmente, sem frear ou soltar bruscamente o acelerador, retomando o controle quando a velocidade chegou na casa dos 60 km/h.
    Chegando a Puelche temos duas opções para seguir viagem. A primeira é continuar por terra passando pelas localidades de Puelo, Cochamó, Ralún até alcançar Puerto Varas. A segunda é navegar 25 minutos em outra balsa e atravessar de Caleta Puelche até La Arena, seguindo pela Ruta 7 até o seu fim em Puerto Montt. Certamente o primeiro trajeto é muito mais atrativo, pois continua por estrada de chão, passando por pequenos povoados, sempre acompanhado das paisagens do Estuário do Reloncaví. Devido aos problemas mecânicos nas correntes mas, principalmente, pelo dano na suspensão da v-strom preta, optamos seguir pelo caminho mais fácil, sem pedras e buracos, ou seja, tomamos a balsa para Caleta La Arena e chegamos ao final da tarde em Puerto Montt.
    A chegada nesta última cidade foi tensa, o trânsito estava muito pesado e os hotéis lotados. Passamos por várias opções de hospedagem e não encontrávamos vagas, olhamos até os mais caros e nada de una habitación triple. Quando já estávamos decididos a procurar hospedagem na próxima cidade em nosso caminho, Puerto Varas, passamos por um discreto hotel nos fundos de um posto de gasolina Petrobras. Entramos, consultamos e ficamos por ali, pois a tarifa era uma das mais atrativas que encontramos em território chileno até hoje além, é claro, de ter disponível um espaçoso quarto com três camas.
    Depois de instalados saímos para uma caminhada pela orla com a intenção de visitar o Bairro Angelmó, porém, logo que pedimos uma informação na rua, fomos alertados que o comércio do mesmo já estava fechado e que a caminhada ainda era longa. Resolvemos retornar e jantar ao lado do hotel, em uma boa e pequena pizzaria.
    Após o jantar retornamos ao nosso quarto recém-pintado com tinta a base de óleo (imaginem o cheiro!) e conseguimos acessar a internet wi-fi do hotel. Colocamos os amigos e familiares a par de nossa viagem e também recebemos um email do Juan, nosso amigo de Santiago, dizendo que já havia sondado todas as lojas e oficinas da região e que não encontrou o retentor para a suspensão da v-strom em nenhum lugar. Também recebi pelo whatsapp, uma mensagem do Jaime, nosso amigo chileno que está a nossa espera em Pucón, ele me enviou o endereço, mapas e fotos de onde estaria nos esperando, em um apartamento de sua família.
    Com tudo resolvido por hoje, fomos dormir.
    Hospedagem: Hotel Torremolinos (bed and breakfast), Avenida Benavente nº 680 (ao lado de um posto Petrobras), www.torremolinos.cl, email reservas@hoteltorremolinos.cl. Diária para acomodações simples em apartamento triplo Us$ 80,00.

    Terça(10/01/2017)
    Dia 12: Puerto Montt (Chi) - Pucón (Chi) - 340 Km

    O comércio abre tarde por aqui, somente as 10:00 h, e por este motivo não nos preocupamos em acordar muito cedo, cuidamos apenas para não perder o horário do café da manhã no hotel. Novamente choveu intensamente durante toda a noite, mas, quando levantamos, o tempo já estava abrindo e a temperatura subindo rapidamente. Assim que saímos já aproveitamos para completar o tanque das motos e calibrar os pneus no posto de gasolina em frente ao hotel. Como eu já havia pesquisado a localização pela internet, facilmente chegamos numa loja onde possivelmente encontraríamos o óleo para corrente que tanto necessitávamos e talvez os retentores. Para nossa surpresa, quando encostamos as motos na frente da loja Sur Motos, o pessoal já sabia quem éramos e de que necessitávamos, pois o Juan já havia feito contato durante a semana para tentar resolver nosso problema do retentor. Fomos avisados que não havia o retentor no sul e que, se queríamos comprar a peça, teríamos que nos deslocar até a capital Santiago. Agradecemos, compramos o óleo em spray para as correntes e aproveitamos a boa vontade de um senhor que estava na oficina e que nos liberou o uso da água na área de lavagem, para tirar o excesso de barro que estava seco e preso nos radiadores e freios das motos. Conversando ainda com este senhor, que foi muito atencioso, ele nos comentou que são muitos os viajantes que passam por sua loja, principalmente para trocar pneus, óleo ou fazer alguma outra manutenção na oficina. Pegamos seu cartão, agradecemos a gentileza e partimos com destino a Puerto Varas para , mesmo sabendo que não havia estoque pois o Juan já confirmara isso, tentar a sorte na Motorancho, uma representante da marca Honda, SeaDoo e Can-am. Saímos da autopista (Ruta 5), pagamos um pequeno pedágio da coletora local, paramos em uma outra oficina para perguntar e tentar o reparo e depois nos dirigimos para a loja da Honda (que até então nos afirmavam erroneamente que também era representante Suzuki). Fizemos as perguntas de praxe, recebemos as respostas de praxe (no hay), especulamos um pouco os produtos e preços praticados na loja e finalmente colocamos as motos para rodar em direção a Pucón.
    Agora, deixa eu te contar do óleo para a corrente: O Sérgio comprou uma lata só para ele, enquanto eu e o Charles, um pouco receosos, "rachamos" outra, pois o preço não era atrativo e tampouco conhecíamos o produto. Depois de alguns quilômetros notamos que o óleo gringo, fabricado nos Estados Unidos e com o elegante nome de Top 1 Synthethic Chain Wax era a maior porcaria, tinha cheiro de óleo queimado e mantinha a lubrificação por míseros 100 quilômetros, mas, mesmo assim, cumpriu seu dever nos últimos suspiros de nossas correntes.
    Novamente, assim como ocorreu em Bariloche, nesta minha segunda passada pelo Sul do Chile, percorro boa parte da Ruta 5 com muitas nuvens e alguns respingos provenientes de chuvas distantes. Novamente sou impedido de apreciar a imagem do vulcão Osorno em sua plenitude, pois, novamente, tenho que me contentar apenas com a suposta imagem de sua base. Digo suposta porque nem fazia ideia de onde ele, o vulcão, se encontrava tamanha era a quantidade de nuvens e neblina em suas adjacências. No meio do caminho paramos em um posto para abastecer e lanchar.
    Para felicidade geral do grupo, depois de vários dias sem ver um céu totalmente limpo, ao chegar a Pucón eis que encontramos um belo dia de verão na região dos lagos chilena. Alguns dias antes o nosso anfitrião em Pucón, o amigo de longa data Jaime Reydet, havia me passado um mapa detalhado, feito a mão e com fotos, da localização de sua residência. Com estes dados chegamos facilmente à nossa morada dos próximos dias. Descarregamos as motos, nos acomodamos em um confortável quarto do apartamento da família do Jaime e descansamos um pouco, tomando um refresco e colocando a conversa em dia com nosso amigo de longa data e a Elena, sua companheira.
    Recompostos e com roupas mais agradáveis, pois o calor voltara ao sul do Chile e ainda era muito cedo, logo saímos para caminhar pela cidade. Aproveitamos o dia lindo, com céu limpo e pouquíssimas nuvens, para realizar alguns registros fotográficos desta pequena e acolhedora cidade. Pucón é cosmopolita, as ruas fervilham durante dia e noite com turistas do mundo inteiro, seja verão ou seja inverno, em busca das mais diversas atrações turísticas disponíveis na região; é um destino para passar alguns dias, explorando rios, cavernas, lagos, montanhas, vulcões e uma enorme gama de esportes de aventura além, é claro, de descobrir novos horizontes com a excelente gastronomia local. Passamos analisando as vitrines em busca de alguma lembrança, adentramos em uma feira de artesanatos, algumas lojas de material de aventura, pois sempre encontramos algum item prático para as viagens de moto e, por último, fomos até uma operadora de turismo em busca de um pacote para a subida do vulcão Villarica. As notícias que vieram a seguir não foram as melhores: fazia dias que o vulcão estava fechado para subidas devido aos ventos fortes, chuvas e falta de visibilidade próximo à cratera. Com isso, as filas de espera estavam só aumentando, dia após dia, e hoje fora o primeiro, dentre poucos nesta temporada, em que a fila andou devido a melhora do tempo. Estávamos numa segunda-feira, nos dois próximos dias não havia vaga, então marcamos e pagamos parcialmente nossa ascensão para quinta-feira, o próximo dia com espaço para os 3 brasileiros. Ficamos de voltar na quarta para provar e deixar reservado o material para a escalada.
    Já de retorno ao apartamento, passamos num supermercado para comprar sabão em pó para lavar nossas roupas e depois procuramos uma cafeteria com wi-fi para enviar notícias ao Brasil. Encontramos um excelente lugar, com boa comida onde apreciei um bom capuccino acompanhado de um apfelstrudel com creme de primeira linha.
    Colocamos as roupas na máquina comunitária do edifício e subimos para jantar um belo salmão preparado pela Elena. Entre algumas latinhas de cerveja e algumas doses de pisco sour, travamos uma longa conversa noite adentro.

    Quarta(11/01/2017)
    Dia 13: Pucón (Chi)

    Hoje foi mais um dia de descanso para nós e para as motos, acordamos tarde, tomamos um bom café da manhã e nos preparamos para cumprir um dos passeios programados desde o início da preparação da viagem. O dia estava lindo, fazia calor, uma leve brisa soprava e não havia nenhuma nuvem no céu quando saímos de camionete com o Jaime e a Elena ao Parque Nacional Villarica para realizar o passeio das Cuevas Volcanicas. O caminho por dentro do parque é bem acidentado, com fortes subidas e descidas, com algumas curvas bem fechadas em um pavimento composto de material vulcânico que, em sua essência, parece um tipo de brita bem fina. Já próximo ao centro turístico das Cuevas encontramos o portão de entrada onde é cobrada a taxa de visitação no valor de $18.000 pesos chilenos, algo em torno de Us$ 90,00, um valor bem salgado, mas, como bem vimos depois, valera o investimento. Iniciamos a visitação com uma breve explicação do guia sobre as diferentes eras e períodos geológicos por qual a terra passou até chegar aos dias de hoje, algo sobre era cenozoica, mesozoica paleozoica, pré-cambriana ou ainda períodos quaternário, terciário, cretáceo e por aí vai. Também explanou sobre formação deste túnel milenar, informando que ela ocorreu após uma grande erupção do vulcão, onde um rio de lava desceu montanha abaixo, por dentro da terra, vindo a solidificar-se após uma diminuição da atividade do Villarica, formando uma grande e longa caverna de sólidas paredes constituídas pela mais dura rocha vulcânica. Em seguida colocamos os capacetes de proteção, pois em alguns lugares o túnel se torna mais estreito e ha o risco de algum acidente e então iniciamos a descida com o guia, novamente, explicando de sua formação como também indicando os mais diversos metais encontrados nas paredes do túnel. A visitação durou cerca de uma hora e meia, o caminho é bem acidentado porém, como fizemos bem devagar, cumprimos com uma certa tranquilidade. A caverna é muito fria e úmida, o gotejamento de água do seu teto é constante, o que nos faz recomendar ao visitante que sempre esteja munido de, ao menos, uma jaqueta impermeável ou um corta-vento. Outro dado interessante que nos foi passado pelo guia é que o ar na parte mais profunda em que chegamos na cova, devido algumas interações com alguns minerais, possui disponível 30% a mais de oxigênio que o ar que respiramos na superfície. Ainda nesta parte mais profunda encontramos um tipo de grilo que vive somente ali naquele habitat, uma criaturinha de coloração parda e que se manteve parada mesmo sob um ataque incessante de flashes, pois, durante sua evolução, devido à ausência total de luz no local, a espécie teve seus olhos atrofiados pelo desuso tornando-se totalmente cega. O passeio foi uma boa experiência, recomendo.
    Após o pequeno trekking retornamos à casa onde estávamos hospedados para almoçar e descansar um pouco. Nossa pausa não durou muito, pois ainda tínhamos muitas coisas para fazer no centro de Pucón. Nossa primeira parada foi em uma casa de câmbio para trocar alguns dólares por pesos chilenos, pois necessitaríamos da moeda para finalizar o pagamento do pacote para a escalada até a cratera do vulcão Villarica como também para comprar alguma lembrança e pagar mais algumas despesas de alimentação, gasolina, etc. Na casa de câmbio o Sérgio descobriu que tinha duas notas de Us$ 100,00 falsas em meio as verdadeiras.
    Nossa próxima parada no centro de Pucón foi na empresa de turismo, onde chegamos para pagar o restante do pacote como também para provar as roupas e calçados de montanha que seriam usados no dia seguinte para chegar até a cratera do vulcão. Esse, depois da Carretera Austral, era um dos grandes atrativos por qual esperávamos e a expectativa era muito grande já a alguns anos. Como relatei em meu livro "Estrada Sem Fim", eu já sonhava com esta ascensão ao Vulcão Villarica desde minha primeira passagem por aqui em 2007, também já havia programado-a em 2011 por ocasião de uma viagem no mês de julho e, por fim, uma terceira tentativa foi planejada em março 2015, no retorno de uma viagem a Ushuaia, todas em viagens de moto. As três foram canceladas por fatores que fugiam de meu controle ou de meu simples "querer", como a falta de dinheiro, excesso de neve no inverno e uma erupção do vulcão alguns dias antes de chegarmos com nossas motos em Pucón.
    Assim que entramos na operadora de turismo fomos recebidos pelo rapaz com que estávamos tratando o assunto, ele já nos olhou com um ar desanimado e foi logo nos comunicando que o tempo voltara a piorar, que o prognóstico para o nosso dia (amanhã) era de nuvens e chuva e que o acesso ao vulcão estaria fechado. Recebemos o valor da reserva de volta e partimos muito desapontados, caminhando cabisbaixos pelas ruas da cidade, tentando entender o porquê do Rucapillán (nome Mapuche do Villarica e que significa "casa do demônio") não querer a nossa presença em seu topo. Queimei assim minha quarta tentativa.
    Circulamos pelo centro, compramos algumas lembranças para levar ao Brasil, passamos novamente na cafeteria com wi-fi e retornamos ao apartamento para jantar. O golpe foi tão forte que desanimamos e resolvemos iniciar nosso retorno já no dia seguinte, não fazia mais sentido nossa permanência em Pucón em um dia que prometia chuva, melhor subir nas motos e ganhar terreno em direção a nossas casas.
    Dividimos até tarde mais alguns bons momentos com o casal Jaime e Elena, arrumamos nossas tralhas e fomos dormir.

    Quinta(12/01/2017)
    Dia 14: Pucón (Chi) - Plottier (Arg) - 865 Km

    O boletim meteorológico do pessoal é dos bons. Ao acordarmos o céu estava tomado por nuvens, ainda não chovia, mas ficou evidente que de nada adiantaria subir o vulcão, com temperaturas muito baixas e talvez, com chuva ou neve pelo caminho, colocando em risco nossas vidas apenas para subir, sem ter o privilégio de contemplar a paisagem da região dos lagos vista da cratera do Villarica. Fica para a próxima!
    Despedimos-nos de nossos dedicados anfitriões Jaime e Elena, abastecemos as motos no posto próximo a rótula de entrada em Pucón e seguimos por uma linda estrada com diversos locais destinados aos praticantes de camping e muitas cabanas para alugar em meio aos lindos bosques próximos ao parque Nacional Villarica. Sempre fugindo da chuva, rodamos por um asfalto liso e perfeito, acompanhados de alguns respingos e baixas temperaturas, passamos pela localidade de Curarréhue e logo atingimos o limite internacional com a Argentina, o Paso Mamuil Malal, localizado a míseros 1.207 m.s.n.m. conforme apontado pela cartografia ACA (Automovil Club Argentino). Rapidamente realizamos nossa saída da Chile e retornamos às motos para cumprir mais alguns quilômetros de rípio em meio ao Parque Nacional Lanin até a aduana argentina, aonde já chegamos com sol e tempo bom. Neste trajeto entre as aduanas paramos, eu e o Sérgio, para aguardar o Charles que demorava em aparecer em nossos retrovisores, aproveitei a pausa para fazer alguns registros fotográficos do local até o momento que o Cuturneiro desgarrado apareceu e então seguimos viagem até a próxima aduana. A Cordilheira é uma barreira incrível mesmo, do lado chileno chuva e frio e do lado argentino, sol e temperatura agradável. Chegando à aduana argentina o Charles nos relatou que demorou em nos alcançar porque, ao arrancar, a moto trancou num desnível do asfalto e pendeu para o lado direito, tombando imediatamente. A aduana estava lotada e, para nossa sorte, um oficial veio nos ajudar, pegando nossa documentação e realizando a saída do trio em uma única vez. Agradecemos a gentileza, deixamos um adesivo dos Cuturneiros e do Brazil Rider's, trocamos mais algumas palavras com um Gendarme que organizava o estacionamento na aduana e retomamos nosso caminho pelos últimos 18 quilômetros de rípio que encontraríamos em território argentino. Pavimento este bem ruim, com muitas costeletas e diversas pedras grandes e soltas ao longo do caminho. Paramos apenas para fazer um registro do vulcão Lanin (3.728 m.s.n.m. conforme a cartografia ACA) e seguimos viagem bem devagar por mais esta linda região de cordilheira até alcançar o entroncamento da Ruta 40.
    Como o caminho a seguir era em parte desconhecido, por segurança optamos em desviar um pouco a direita e abastecer as motos em Junin de Los Andes aonde, novamente, chegamos com muito vento e uma longa fila no posto de gasolina. Desta vez a parada foi rápida e prontamente retornamos ao nosso curso em direção a Plottier, cidade satélite de Neuquen e onde planejamos a pernoite. Utilizamos a Ruta 234 (belíssima!) e posteriormente a 237, passando por Piedra de Aguila, uma localidade estratégica para os viajantes que cruzam as planícies da Patagônia de um lado para o outro em busca de aventura e belas paisagens. Um pouco antes de nossa parada passamos por um grande caminhão baú tombado para o lado direito da estrada, vítima, creio eu, dos fortíssimos ventos que chegavam furiosamente por nosso lado esquerdo. Aproveitamos o pit-stop da gasolina para lanchar, tomar uma água e descansar. Nesta parada chegou um trio de gaúchos que não recordo de onde eram, viajavam um casal em uma BMW 800 e um vivente solito, também de nome Sérgio, em uma Yamaha Super Ténéré com o pneu careca e um retentor da suspensão dianteira estourado pelo rípio da Ruta 40. Retornavam de Ushuaia e também já estavam a alguns dias na estrada. Conversamos um pouco e logo seguimos viagem, cada um no seu tranco, a gente num trote mais devagar e eles, com motos maiores, num galope mais ligeiro.
    O dia não estava fácil, além dos fortes ventos, nos últimos 100 quilômetros também fomos acompanhados por tempestades de areia e muito movimento na estrada. Ao chegar nas imediações de Neuquén percebemos que o tempo estava nublado, diria até um nublado "diferente", e não demorou muito para percebermos que não se tratava de nuvens normais, mas sim de muita areia suspensa no ar, que deixava a atmosfera, em contato com os raios solares, com uma tonalidade opaca e avermelhada, algo, no mínimo, sinistro. De posse do endereço no hotel, foi só deixar o GPS nos guiar até ele (por ruas secundárias, mas valeu). Nossa hospedagem de hoje foi dica de um casal de amigos locais, o Marcelo e a Claudia, e nos pareceu uma ótima opção, pois está localizado a poucos metros da autopista, com restaurante e posto de gasolina no seu entorno além de possuir ótimas acomodações e um bom café da manhã no estilo buffet.
    Depois de instalados e de tomar um bom banho para despachar o calor e os quilos extras de areia, saímos para abastecer as motos. Logo retornamos para deixar as motos no hotel e saímos novamente, agora caminhando, para matar um tempo e aguardar a abertura do restaurante. Fartamos-nos com um gigante milanesa con papas fritas y ensalada e retornamos ao hotel para o merecido descanso pois, se hoje o dia foi duro, amanhã teremos mais deserto pela frente.
    Hospedagem: Hotel Costa Limay, Bachman nº 269, Plottier, Província de Neuquen. www.hotelcostaliamy.com.ar, email reservas@hotelcostalimay.com.ar. Acomodações três estrelas e diária para apartamento triplo no valor de Us$ 100,00.

    Sexta(13/01/2017)
    Dia 15: Plottier (Arg) - General Villegas (Arg) - 832 Km

    Adoro quando o hotel serve o café cedo. Levantamos as 6:00 h, carregamos as motos, tomamos um bom café, pagamos a conta, conversamos um pouco e pegamos algumas dicas com quem parecia ser o proprietário do hotel e as 7:30 já estávamos rodando pela autopista. Mesmo usando estradas que realizam o contorno externo da capital Neuquén, escapando assim de toda a tranqueira do centro, levamos uma hora para atingir a Ruta 151, estrada que nos levaria ao coração da Pampa argentina. Depois de algumas informações, muito trânsito pesado e alguns buracos desviados, finalmente estávamos acelerando as motos com tranquilidade pelas longas retas argentinas.
    Nossa primeira parada foi para abastecer em um novo posto YPF na entrada de Catriel, aproveitamos para lubrificar e verificar a folga das correntes, tomar um café para espantar o sono e descansar. O dia estava muito mais calmo que o anterior, com temperatura agradável e um fraco vento empurrando a moto o tempo todo. Rodamos mais um pouco e paramos para registrar nossa entrada na Ruta Provincial 20, carinhosamente batizada de "La Conquista del Desierto". Neste momento encontramos novamente aquele trio de gaúchos e ficamos ali batendo mais um bom papo com eles. O Sérgio, da Super Ténéré, conseguiu trocar por vários pesos argentinos (algo em torno de Us$ 300,00), o seu pneu traseiro careca por um Michelin Anakee 2 "zero quilômetro", modelo excelente e já descontinuado no Brasil.
    Algumas coisas mudaram desde a última vez que passei aqui em fevereiro de 2007, a infraestrutura ao viajante está um pouco melhor, com mais pontos de abastecimento e até um hotel neste entroncamento da RP 20. O hotel, para quem interessar, chama-se Cruce del Desierto e fica ao lado de um grande posto de gasolina Petrobrás, bem na junção da Ruta 151 com a RP 20.
    Lembro-me de cada quilômetro de minha primeira passada pela RP 20, andava de Falcon 400, com garupa e muita bagagem distribuída em alforges, baú e mala-tanque; o vento lateral tornava a pilotagem muito cansativa e não permitia a moto desenvolver uma boa velocidade, fazendo o consumo aumentar muito, ficando na casa dos 16 km/l; certamente foi um dos dias mais duros naquela viagem de 2007. Desta vez o tempo ajudou, as motos eram mais fortes e conseguimos cruzar o deserto, apesar de toda monotonia, com muita tranquilidade. Quando estávamos ainda descendo pela Argentina para chegar ao Chile, acompanhávamos pelos telejornais notícias de grandes incêndios que estavam ocorrendo na província de La Pampa, por onde estávamos passando agora. Percebemos muita vegetação queimada, cercas destruídas pelo fogo e grandes colunas de fumaça que ainda subiam ao céu mais ao longe, indicando que a situação ainda estava fora de controle em algumas regiões. Por sorte escapamos de passar aí com muita fumaça. Paramos para abastecer em La Reforma, aproveitei para tomar uma água e a gurizada um café, encontramos mais uns brasileiros e logo seguimos viagem. Na localidade de Chacharramendi fomos obrigados a usar um desvio pelas ruas de terra do povoado para contornar um grave acidente que interrompera a estrada; foi uma colisão frontal entre dois carros que, visto a dimensão da destruição causada, provavelmente vinham em altíssima velocidade.
    Chegamos a General Acha, paramos para descansar, abastecer e fazer um lanche mais reforçado. A partir deste ponto a paisagem já começa a ficar mais amigável, temos mais indícios de civilização, o pasto já é mais verde, aparecem algumas árvores pelo caminho e toda aquela secura de tonalidade parda começa a ser deixada para trás. A viagem fica também mais cansativa, o trânsito aumenta e a atenção tem que ser redobrada. Passamos por Santa Rosa e tocamos direto até Trenque Lauquen, onde chegamos as 17:00 h e novamente paramos para fazer um lanche, abastecer, lubrificar e esticar a corrente das duas Suzukis. Olhamos no mapa e resolvemos andar mais um pouco, ainda era cedo e não estávamos muito cansados. Rodamos até General Villegas e paramos novamente para abastecer. Pegamos algumas informações nestas duas últimas paradas que nos indicavam que nossa velha conhecida, a cidade de Venado Tuerto, estava com grande ocupação na rede hoteleira por causa de alguma feira agrícola que ocorria na região e então resolvemos encerrar nosso dia por aqui mesmo. Procuramos um hotel próximo ao posto e descarregamos as motos. Mais tarde fomos até ao restaurante ao lado do YPF e "botamos para quebrar" na parrillada livre que nos foi servida, um espetáculo de variedade e de boas carnes.
    Novamente fui obrigado a regular e lubrificar a transmissão da moto; o conjunto está muito ruim, causando uma oscilação no movimento linear na moto e a impressão é que a corrente pode romper a qualquer momento. Muita calma nesta hora! Amanhã seguimos despacio!
    Hospedagem: Hotel Antonini, Ruta 188 Km 361/362 (próximo ao YPF do entroncamento), General Villegas, província de Buenos Aires, telefone 03388422050, acomodações simples. Diária para apartamento triplo Us$ 60,00.

    Sábado(14/01/2017)
    Dia 16: General Villegas (Arg) - Trinidad (Uru) - 780 Km

    Novamente acordamos cedo, carregamos as motos que estavam estacionadas junto a porta do quarto e nos dirigimos ao café. O "recepcionista-preparador do café" estava em uma boa charla com algum cliente, fazendo com que aguardássemos mais um pouco até ele colocar as xícaras vazias sobre a mesa e nos servir as duas medialunas (por pessoa) entre um tema e outro de sua tranquila conversa. Mas era hora de troca de turno e então aguardamos mais um pouco o novo "recepcionista - preparador de café" chegar, se arrumar e terminar o processo iniciado alguns vários minutos atrás, trazendo em mãos um bule de café e outro de leite para servir e preparar a nossa dose única de desjejum.
    Assim que retornamos à Ruta 33, neste pequeno trecho entre General Villegas e Rufino, já nos deparamos com um pavimento bem deteriorado, com ondulações e alguns buracos grandes e perigosos ao longo da via, algo um pouco fora dos padrões das excelentes estradas argentinas. Também neste trecho percebemos que a quantidade de água ao lado da estrada estava absurdamente aumentada, cobrindo cercas, porteiras, estradas e algumas casas, chegando, inclusive, a invadir o asfalto em alguns momentos. O leitor recorda que no início desta viagem atravessamos grandes nuvens de tempestades? Pois é, como descobrimos depois ao assistir os noticiários argentinos, além da grande seca e dos incêndios na província de Neuquen e La Pampa (que atravessamos ontem), partes das províncias de Santa Fé e Buenos Aires (que estamos percorrendo hoje) foram assoladas por intensas chuvas após nossa passagem, causando enchentes e muitos estragos na área urbana e no campo.
    Assim que passamos Rufino a estrada volta a melhorar e logo chegamos à Venado Tuerto onde paramos rapidamente para abastecer. Mais alguns quilômetros adiante e chegamos à Rosário, onde novamente paramos no mesmo posto de sempre para abastecer e fazer um lanche. Assim que entramos na avenida que circunda Rosário notamos uma grande aglomeração de pessoas e vendedores ambulantes ao largo da autopista aguardando a passagem da última etapa do rallye mais famoso do mundo, o Dakar. Para nossa sorte a prova acontecia no sentido oposto ao que nos deslocávamos, em uma via dupla de 3 pistas cada, deixando livre o nosso caminho do grande esquema de segurança armado para a passagem da prova. Aos poucos deixamos ao largo a grande cidade de Rosário, passamos sobre a linda ponte Nossa Senhora do Rosário, sobre o rio Paraná, pagamos o pedágio e percorremos novamente, em meio a um intenso trânsito, este bonito trecho da Ruta 174 até chegar à Victória, já na província de Entre Rios. Deste ponto seguimos por Gualeguay e Gualeguaychu, onde paramos para abastecer em nossa última cidade argentina do caminho. Aproveitamos a parada para avisar ao Ruben que em poucos minutos estaríamos cruzando o Rio Uruguai e fazendo os trâmites para entrar em seu país; aproveitamos também para fazer um lanche, descansar e nos hidratar, pois o calor estava fortíssimo.
    A fila na aduana estava grande, com muitos carros argentinos realizando a entrada no Uruguay para, provavelmente, aproveitar também um pouco das praias brasileiras. Como sempre o processo de entrada foi rápido, com pouquíssima burocracia e muita boa vontade por parte das autoridades uruguaias. Fui o primeiro a realizar a entrada e assim que estacionei a moto após a cabine da aduana já percebo o nosso amigo Ruben Aguilar caminhando em nossa direção. Foi uma grande alegria rever o amigo e sua companheira Monica nos primeiros metros percorridos em solo uruguaio. Conversamos um pouco com o casal e avaliamos o caminho a ser realizado. Tínhamos duas opções: um mais longo, com o asfalto em péssimas condições e outro de balastro (off-road), mais curto e talvez em melhores condições que o asfalto. Optamos pelo segundo e passamos por novas e lindas regiões de campos e reflorestamento.
    Já com o sol se pondo no horizonte, por volta das 19h, chegamos à Trinidad; alojamos-nos na casa do Ruben onde descansamos embalados por uma boa prosa, uma boa cerveja e uma excelente costela uruguaia assada na "parrilla".

    Domingo(15/01/2017)
    Dia 17: Trinidad (Uru) - Passo Fundo (RS) - 905 km Km

    Era domingo e mesmo assim sacaneamos o Ruben acordando cedo para seguir em nosso último dia de viagem. O caminho de hoje já é nosso velho conhecido, paramos apenas abastecer e para tomar o café da manhã da cidade de Paso de Los Toros e logo seguimos com destino a fronteira. Neste caminho ainda passamos por uma prova de ciclismo de estrada, com diversos ciclistas cortando o pampa uruguaio em um asfalto de dar inveja a qualquer usuário (assim como eu) de bicicletas tipo "speed". Quando chegávamos a Rivera, notei algumas placas de publicidade avisando que os trâmites poderiam ser feitos também no novo shopping Sineriz. Ignorei a propaganda e segui ao antigo complexo próximo ao centro.
    Quando chegamos ao antigo prédio onde sempre esteve localizada a aduana encontramos somente inúmeros "chapas" esperando algum turista desavisado para garantir alguns trocados. Fomos informados pelos solícitos amigos que a aduana estava atendendo em novo lugar, que o caminho era complicado e que o melhor seria que um deles nos guiasse até o local, pois eles estavam ali para isso, não esperando nada em troca (parece piada, mas ouvi isso). A sorte estava jogando contra o trio de brasileiros, o calor se fazia forte, o sol estava a pino e o "chapa" da vez na fila de espera não estava de moto e nem de jegue e sim de bicicleta. Atravessamos a cidade com o parceiro pedalando com muita vontade a sua bike e depois de vários minutos chegamos esbaforidos (nós de calor e o vivente quase sem ar) ao novo shopping Sineriz, onde foram estrategicamente colocadas (pelo dono do shopping) as aduanas brasileiras e uruguaias. Fomos obrigados a realizar os trâmites separados, em duas vezes, pois o estacionamento destinado às motos fica a uns 100 metros de distância da sala onde estão as aduanas. Até tentamos colocar as motos próximas ao local, mas fomos sutilmente convidados a retirar elas dali por um "chefe" do estacionamento do shopping.
    Uma rotina que sempre levou em torno de 5 minutos, desta vez nos custou uma hora de suor e stress, pois além de sermos ludibriados pela proposital falta de sinalização oficial onde deveriam ser realizados os trâmites aduaneiros, gastamos com um serviço terceirizado de guias clandestinos que reclamaram do valor pago e ainda ficamos torrando no sol de verão aguardando a vez no comercial e complicado complexo aduaneiro.
    Abastecemos e fizemos um lanche no posto Ipiranga de sempre e seguimos viagem juntos até o entroncamento da BR 158 com a BR 290, logo após a cidade de Rosário do Sul, onde viramos, eu e o Charles para a esquerda e nos despedimos do Sérgio que seguiu reto pela BR 290 até Porto Alegre. Paramos para abastecer e descansar em Júlio de Castilhos e, ao final da tarde, chegamos a Passo Fundo. O Charles deixou a moto aqui em Passo Fundo, pois necessitava de muitos reparos e seguiu de ônibus até Erechim, pondo fim a mais esta viagem dos Cuturneiros.

    BALANÇO DA VIAGEM
    E lá se foi outra viagem, com 8.615,7 quilômetros percorridos conforme indicado pelo hodômetro de minha moto, com novos amigos conquistados, velhos amigos abraçados, novos caminhos desbravados e vários outros pontos revisitados. Desta vez acrescentamos novas experiências às nossas viagens, pois percorremos longos caminhos de estradas de rípio e terra, totalizando quase mil quilômetros nestes pavimentos mais instáveis, o que gerou grande apreensão por nossa parte antes de iniciar a viagem, visto que até então somente havíamos percorrido um pequeno trecho de bom rípio na Terra do Fogo quando estávamos a caminho de Ushuaia. Apesar de nossas motos não serem as ideais para o trajeto fora do asfalto, pois não possuem os pneus e suspensões apropriados para o terreno, além de serem um pouco mais pesadas e desajeitadas que as tradicionais motos off-road, com calma e cuidado cumprimos com certa facilidade os trechos de rípio e terra na Ruta 40, Carretera Austral e um trajeto de aproximadamente 80 a 100 quilômetros em uma estrada secundária em terras uruguaias. Já li e ouvi relatos de amigos que fizeram o trajeto com motos mais inadequadas ainda, tipo sport tourings ou customs, porém também lograram êxito por seguirem respeitando os limites impostos por suas respectivas máquinas. Estes trechos exigem muito mais do piloto e do equipamento, portanto, programe deslocamentos menores para estes dias, podendo assim cumprir com folga e segurança cada etapa nestes terrenos mais difíceis.
    Nesta viagem, como em outras pelas regiões patagônicas e de cordilheira, vivenciamos os extremos de um dia para o outro. Viajamos com temperaturas insuportáveis, superiores aos 42ºC na província argentina de Entre Rios, viajamos com temperaturas amenas em regiões de cordilheira como também enfrentamos frio abaixo de zero na saída de Bariloche. Também tomamos muita chuva no trecho da Carretera Austral, que nos obrigou a rever o roteiro pela impossibilidade de visitar alguns pontos pré-programados como o Ventisquero Colgante no Parque Nacional Queulat e os Saltos de Petrohué localizados próximos a Puerto Varas no Chile. Atravessamos com um clima extremamente seco a província de Neuquén, assolada por fortes ventos e queimadas descontroladas, que juntos lançavam ao ar toneladas de poeira e fumaça, deixando muito melancólico este lindo pedaço de terras patagônicas.
    Fazia anos que não viajávamos em alta temporada e nesta viagem recordamos o porquê desta opção de evitar o período de férias. As aduanas estavam sempre cheias de gente entrando ou saindo de algum país; as estradas sempre mais movimentadas; os preços de hotéis em cidades maiores e turísticas sempre inflacionados; a disponibilidade de vagas na rede hoteleira sempre diminuída, onde, por diversas vezes, fomos obrigados a rodar um bom tempo a procura de um lugar para dormir, pagando inclusive por opções mais caras por não achar algo mais "em conta" depois de um longo dia na estrada.
    Um fato que pouco mudou em nossa passagem pela Argentina foi o achaque da Polícia Caminera de Entre Rios. Fomos parados diversas vezes, em vários postos de fiscalização ao longo da Ruta 127, por vezes com intervalos inferiores a 30 quilômetros distantes um dos outros. Em todos nos pediram a documentação pessoal e da moto com a finalidade clara de achar algum ponto ou vírgula fora do lugar e então aplicar aquela famosa "multa sem recibo emitida dentro da sala do chefe dos policiais". Um item que tem se tornado cada vez mais obrigatório para passar por este trecho e não ser assaltado por estes bandidos de farda são as filmadoras acopladas ao capacete ou a algum ponto da motocicleta. Claramente isso impediu um assédio maior por parte destes policiais corruptos, visto que eles, ao perceberem que estavam sendo filmados, rapidamente verificavam a documentação e nos liberavam, sem inventar qualquer outra transgressão da lei de trânsito. Amigos meus que viajaram sem a câmera, foram multados em mil pesos argentinos (já com desconto, pois o valor inicial era de $5.800 pesos) por excesso e velocidade, em uma estrada repleta de ondulações e buracos; velocidade esta aferida sem radar, mas sim pelo afiado olho gordo do policial de plantão. Além dos olhares desconfiados e atravessados para as câmeras, também ouvimos conversas e alertas entre eles sobre o uso das filmadoras: "veja, tem foto" ; "atenção, estão filmando". A prática não é nova e se arrasta a mais de décadas nesta região. Posteriormente passamos aí no mês de abril de 2017 e constatamos o mesmo procedimento. Realmente lamentável!
    A Carretera Austral faz jus à sua fama de uma das mais belas estradas do mundo. Mesmo viajando com tempo chuvoso e nublado, com raros episódios de sol e céu claro, ela se demonstrou com intensa beleza em toda a sua extensão (imaginem com tempo bom!), passando por trechos de floresta, trechos banhados por lagos e pelo Oceano Pacífico, atravessando diversos rios, vales e montanhas. Certamente é um caminho a ser revisitado mais algumas vezes com a finalidade de realmente conhecer um pouco mais das inúmeras atrações disponíveis ao longo dos 1.240 quilômetros em sua composição longitudinal, desconsiderando, é claro, os vários caminhos transversais que facilmente elevariam este trajeto à casa dos três mil quilômetros. A estrada é bem provida de combustível e dispões de diversos lugares de hospedagem ao logo do caminho, mesmo longe das cidades maiores e mais conhecidas. Um fato que devemos dar atenção e nos preparar antecipadamente é para o valor dos serviços disponíveis nesta região remota do Chile. Os preços de alimentação e hospedagem estão muito acima dos praticados em outras regiões chilenas, fato que nos obrigou sempre a procurar as opções mais simples de hospedagem.
    Como sempre a região dos lagos chilena foi apreciada com grande satisfação, mesmo não nos permitindo a subida ao vulcão Villarica, o tempo estava ótimo para conhecer um pouco mais de Pucón e seu entorno, sempre muito bem amparados pelo casal de amigos Jaime e Elena.
    Discorrer sobre viajar por estes países que visitamos é "chover no molhado", então só me resta agradecer aos amigos que nos acompanharam virtualmente e aos que nos ajudaram nesta viagem.

    Luiz Felipe Borges, Maio de 2017

    www.cuturneiros.com


    FIM